
Ler Resumo
Sempre fui do tipo de pessoa que não para. Trabalho há anos como técnica de enfermagem em maternidades, um ambiente que me ensinou a cuidar dos outros desde mais nova.
Sou independente e curiosa – do tipo que pesquisa tudo antes de qualquer decisão. Gosto de praia, de amigos e de viajar. Hoje, com 27 anos, dou ainda mais valor a essas coisas depois de tudo o que vivi.
Tudo começou durante uma viagem de férias pelo Ceará. Na época, eu estava afastada do trabalho por causa de um ceratocone, uma condição que afeta a córnea, e aguardava um transplante.
Como sempre tive uma rotina muito corrida em São Paulo e nunca fui de me entregar ao baixo astral, decidi aproveitar aquela pausa para viajar, passear, ir à praia e relaxar.
Estava feliz por finalmente ter esse tempo para mim, sem imaginar que, durante aquela viagem, minha vida estava prestes a mudar completamente.
Estava tudo indo bem, eu conheci lugares lindos, tomava sol e aproveitava as praias, mas uma tosse persistente começou a me incomodar.
Não parecia ser algo sério, mas, como não melhorava e vinha acompanhada de dores pelo corpo, resolvi procurar um pronto-socorro. Ao final da consulta, ouvi do médico que era uma gripe e que as dores musculares eram normais. Eu acreditei.
Quando voltei para casa, minha mãe foi a primeira a notar que meu pescoço estava muito inchado. Quando comentei que estava com falta de ar ao deitar, ela ficou bastante preocupada e insistiu que aquilo não parecia normal.
Fomos ao hospital e lá passei por uma tomografia, enquanto esperava o resultado do exame, ainda estava tranquila. Não imaginava o que estava por vir.
Quando o resultado saiu, o médico foi direto: “Olha, vou precisar internar você. Você tem uma massa de 11 cm no mediastino e há líquido no pulmão e ao redor do coração”. Foi um apagão.
A voz dele continuava explicando o que aquilo poderia significar, falando sobre os linfonodos aumentados, mas tudo parecia muito distante.
Na minha cabeça, talvez fossem apenas ínguas provocadas por uma pneumonia. Uma massa de 11 cm no mediastino? Não. Eu só estava com pneumonia. Tinha que ser só isso.
O médico esclareceu as minhas principais dúvidas e disse que essa massa poderia ser um linfoma, mas que não tinha como confirmar sem uma biópsia. Linfoma. Como técnica de enfermagem, conhecia essa palavra, mas não dirigida a mim como paciente, sendo relacionada ao meu corpo.
Neste papel, meus pensamentos ecoavam “linfoma? Mas linfoma é câncer… Câncer?!”. Enquanto me perguntava como seria dali para frente, notei que minha mãe também estava apavorada. Eu precisaria ser forte por ela também.
Então, fiz o que sempre faço quando não sei alguma coisa: fui pesquisar. E foi aí que descobri que o linfoma de Hodgkin tem uma incidência importante entre adolescentes e adultos jovens. E eu tinha 27.
De repente, comecei a entender que aquela doença, que até então parecia tão distante da minha realidade, também podia acontecer com alguém da minha idade.
Fiquei internada por 23 dias, alguns deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), precisando de drenos no tórax para a retirada de líquidos que se acumulavam. Quando saiu o resultado da biópsia, veio a confirmação: Linfoma de Hodgkin, do subtipo esclerose nodular, em estágio IV.
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A descoberta foi um choque. Como eu passei da menina do Ceará bronzeada e feliz para uma menina com câncer? Fiquei paralisada por dentro, mas a única coisa que eu conseguia pensar era em não deixar a minha mãe sofrer.
No início, o plano de saúde não liberava o tratamento ambulatorial. Como eu não podia perder tempo, fui encaminhada a um hospital especializado em onco-hematologia, onde meu tratamento teve início pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com muita agilidade.
Sou muito grata aos profissionais que me atenderam e explicaram as opções para o meu caso. Eles também falaram de algo que, naquele momento, me tocou profundamente: a possibilidade de preservar minha fertilidade.
Para uma mulher de 27 anos, ouvir isso importava muito. Pensar que eu ainda poderia ter filhos no futuro me trouxe esperança.
A partir de então, tudo aconteceu muito rápido. Comecei as infusões [administração de medicamentos, como a quimioterapia, por via endovenosa] quase às vésperas do Natal, no dia 23 de dezembro.
O primeiro ciclo de infusão foi bem tranquilo, mas as médicas me orientaram que a quimioterapia era acumulativa e que alguns efeitos poderiam aparecer ou se intensificar ao longo do tratamento.
A essa altura, claro que eu tinha medo, mas já acreditava que a gente não deve fazer morada no deserto. Queria contar o que estava vivendo sem deixar que a doença se tornasse a única coisa sobre mim.
Por isso, comecei a relatar minha rotina no TikTok. Em algum momento, viralizei.
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As mensagens não paravam — surgiam pessoas recém-diagnosticadas, familiares assustados, pacientes querendo saber se viver com o quadro causava dores e se elas iriam passar.
Criei um grupo de WhatsApp com pacientes oncológicos de diferentes tipos de câncer, que segue ativo até hoje.
Em meio a tudo aquilo, a fé também foi fundamental para mim. Apesar da gravidade do diagnóstico, eu nunca acreditei que iria morrer. Morrer não combinava comigo.
Logo no segundo ciclo de quimioterapia, eu comecei a sentir muito cansaço, a suar mais do que o habitual e a sentir palpitações e enjoo. Mesmo assim, me mantive confiante e nunca perdi a minha fé de que tudo daria certo.
Depois desse ciclo, as minhas médicas indicaram que eu refizesse o PET scan [exame avançado de diagnóstico por imagem para avaliar as células do corpo].
Antes de abrir o resultado, coloquei as mãos em cada parte do corpo onde havia o linfoma. Declarei em voz alta que não tinha mais nada ali. Declarei de novo. E de novo. A fé não era só um sentimento era um gesto, uma escolha que eu repetia todo dia.
Quando cliquei e abri o resultado, estava ali: “Resposta completa” [quando todos os sinais detectáveis do tumor desapareceram nos exames].
Ao acessar o documento, tive contato com as informações descritas no exame e aguardei a orientação da equipe médica para compreender adequadamente seu significado.
Durante a consulta, a médica explicou os resultados do exame e como eles se inseriam no contexto do meu tratamento, e também esclareceu que eu ainda precisava concluir o protocolo previsto e manter o acompanhamento médico, pois a resposta ao tratamento e a evolução clínica podem variar de pessoa para pessoa.
Mas, para mim, aquela avaliação foi um marco importante dentro de uma jornada que ainda continuava.
Foi um momento muito importante. Lembro que uma das primeiras coisas que fiz quando terminei os quatro ciclos foi perguntar novamente à médica: “Doutora, agora posso ir para a praia?”. Ela disse: “Vai, Evelyn, agora pode ir“.
Depois de tanto tempo pedindo, finalmente eu estava liberada para voltar ao lugar que eu mais desejava estar. Que alegria senti por estar de volta! Que privilégio estar viva!
Lembro que eu me joguei na areia da praia e chorei muito. Entre os primeiros sintomas, a suspeita de um linfoma, a confirmação do câncer e o fim daquela etapa do tratamento, tinham se passado poucos meses.
A minha vida havia mudado completamente. Parecia estar vendo o mar pela primeira vez. Sentia cada brisa no rosto, observava o céu e o sol. Tudo parecia ainda mais lindo do que antes. Era como se eu também estivesse começando de novo.
Assim que pude, voltei ao Ceará, para encontrar onde tudo começou, aproveitar a vida do jeito que eu gosto, tomando sol e conhecendo lugares novos. O cenário era o mesmo. Eu é que já não era.
O que aprendi e que gostaria que mais gente soubesse é que o linfoma de Hodgkin pode atingir pessoas jovens. Eu era ativa, tinha 27 anos, e os primeiros sinais pareciam algo simples. Uma tosse que não passava, o pescoço inchado, falta de ar ao deitar.
Hoje, se pudesse deixar um recado, seria: quando algo persiste ou parece diferente do habitual, procure avaliação médica e não deixe de investigar.
Em remissão, ainda passo por acompanhamento médico a cada seis meses. Até hoje, mantenho o contato com as pessoas que conheci, converso com outras que estão iniciando o tratamento também. Sinto-me feliz em trocar experiências, informação e, principalmente, esperança.
Recomeçar, para mim, significa não apenas sobreviver, mas viver. Ao olhar para trás, decidi que não quero viver no raso, com um pouco de água no joelho. Quero é mergulhar! Quero viver, experimentar coisas novas, viajar com a minha família e ter filhos no futuro.
Dos medos, inseguranças e noites difíceis, nasceu uma nova versão de mim. Quero carregar essa história não como uma marca do câncer, mas como uma lembrança da vida que escolhi viver depois dele.
Quando encontro alguém começando uma jornada parecida com a minha, digo aquilo que eu também precisava ouvir: “Confia. Um dia de cada vez”.
