No silêncio de Entremontes, no sertão de Alagoas, Miguel Correia prestava atenção a um som que não era o mais comum entre os meninos do povoado. Era o atrito da agulha, da linha e do tecido. Aos 7 anos, ele gostava de observar a avó, Maria Nogueira da Silva, conhecida como Maria Gogó, bordar.
“O movimento repetido da agulha com a linha de algodão passando pelo tecido formava um som que eu ficava meio que vidrado assim”, conta.
Maria Gogó foi uma das responsáveis por difundir o redendê em Entremontes, povoado às margens do rio São Francisco, em Piranhas (AL), conhecido pela tradição do bordado. Ali, enquanto os homens tradicionalmente pescam, as mulheres se dedicam às linhas e aos tecidos.
Miguel cresceu nesse ambiente. A avó havia reativado, em 2002, uma associação de bordadeiras e mantinha uma loja onde eram produzidas peças de cama e mesa. Ele acompanhava tudo de perto, mas, no começo, não bordava.
“Eu já tinha noção básica de como era que fazia, mas eu não bordava por falta de referência masculina na área.”
Quando finalmente pegou uma amostra de tecido para tentar reproduzir os desenhos, fazia escondido. Tinha vergonha. A avó, porém, tratava de incentivá-lo. “Ó, Miguel se escondeu porque tá com vergonha de bordar, vê se pode”, dizia Maria Gogó quando alguém chegava à loja. Aos poucos ele foi perdendo a vergonha e aprendendo com ela.
O caminho até transformar aquele interesse de infância em profissão, porém, foi longo. Miguel cursou direito com bolsa integral do ProUni e, para ajudar na renda da família, trabalhou como guia de turismo, garçom, estoquista e operador de caixa. Formou-se no segundo semestre de 2023, mas não chegou a exercer a profissão.
Durante a faculdade, continuou ligado ao bordado. A morte da avó, em 2019, e a pandemia de Covid, no ano seguinte, aproximaram ainda mais Miguel da atividade familiar. Com o turismo parado, a loja passou a funcionar dentro da casa da família, e ele começou a movimentar as redes sociais para vender máscaras e outras peças. Também voltou a bordar.
“Foi quando eu comecei a reacender essa vontade de bordar. Comecei a fazer algumas outras criações, já com a mente um pouquinho mais aberta. Eu vim muito mais livre, muito mais de boa.”
Miguel passou a experimentar o redendê em formatos diferentes dos tradicionais. Criou quadrinhos, desenhos de casinhas, peças de vestuário e outras peças autorais. Em vez de deixar a técnica restrita à cama e à mesa, decidiu levá-la para roupas, bolsas e decoração.
A escolha profissional veio depois de concluir o curso. No fim de 2023, ainda trabalhava em um emprego que conseguia conciliar com o artesanato. No segundo semestre de 2024, decidiu parar de trabalhar para outras pessoas e viver do bordado.
A decisão preocupou a mãe, que é servidora pública e sempre teve o artesanato como complemento de renda. Miguel, porém, entendeu que poderia voltar para casa e viver daquilo que há décadas faz parte da família. “Falei pra minha mãe que iria voltar, ela achou uma loucura porque sabe quão difícil é viver do bordado.”
Hoje Miguel se apresenta como o único homem de Entremontes que vive profissionalmente do bordado. Dentro de casa, diz, nunca enfrentou preconceito. “Meu avô me chamava, me apelidava de Miguel Bordado. Depois, minha vó tinha uma máquina de costura e eu começava a tentar costurar, aí ele começou a me chamar de Miguel Alfaiate.”
Fora de casa, ouviu comentários de que bordado “não é coisa de homem”, mas afirma que, na maior parte das vezes, a reação era de surpresa e admiração.
Miguel procura também fortalecer quem já vive do artesanato em Entremontes. Atualmente, mantém uma rede de cerca de 30 pessoas, entre homens e mulheres, que participam de produção, fotografia e comercialização.
“Eu não faço a mesma coisa que as meninas fazem aqui no ateliê. A ideia é vir com um trabalho um pouco diferente, um pouco mais atualizado, para que não atrapalhe quem já está aqui por mais tempo e que também precisa viver disso.”
A rede permite dividir encomendas e encaminhar clientes para outros artesãos. Uma encomenda de cerca de 2.500 guardanapos para o restaurante do chef Alex Atala, por exemplo, foi compartilhada com a comunidade.
O trabalho também ganhou projeção fora do povoado. Peças do ateliê Entre Artes Bordados foram usadas pelo cantor João Gomes, e o projeto ficou entre os dez semifinalistas de uma premiação nacional de projetos artesanais em 2025.
Agora, Miguel faz um curso técnico de produção de moda na Universidade Federal de Alagoas e prepara oficinas voltadas a homens interessados em aprender a bordar. A ideia é reunir cerca de dez participantes e, ao final, realizar uma exposição das peças produzidas.
Ele afirma também querer que o artesanato seja visto de outras formas. “O artesão muitas das vezes é tido como coadjuvante, sabe? Não como protagonista. Eu acho que em alguns momentos falta a bordadeira, o bordadeiro, o artesão subir ao palco, assumir esse protagonismo.”
Para Miguel, preservar o redendê não significa repetir para sempre os mesmos desenhos e formatos aprendidos por seus antepassados. A tradição, diz, precisa encontrar novos caminhos para continuar existindo.
“Preservar não é deixar parado no tempo. Eu acho que preservar é também você pensar que o redendê pode entrar em outros mundos, né? Como a gente fez no mundo da moda, no mundo da arquitetura.”
