Brasileiros rejeitam o neoliberalismo (e querem uma nova economia)

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Brasileiros rejeitam o neoliberalismo (e querem uma nova economia)

A influência do mercado financeiro sobre a política econômica brasileira parece ser muito maior do que sua legitimidade junto à população. Apenas 24% dos brasileiros concordam que “o governo deve seguir as recomendações dos mercados financeiros”, enquanto 56% defendem que “o governo deve priorizar o que acredita ser melhor” e 21% não sabem ou preferem não responder. O resultado é particularmente relevante em um país marcado pela forte influência do mercado financeiro no debate econômico e pela naturalização da ideia de que o que é bom para o mercado é bom para o país. Essa visão atribui aos mercados o papel de fiscal permanente da política econômica, capaz de punir governos por meio da fuga de capitais, da elevação dos juros e da depreciação cambial, ou de recompensá-los com melhores avaliações de risco e acesso mais barato ao crédito. Os dados sugerem, contudo, que essa lógica de “disciplina de mercado” encontra pouca correspondência nas preferências da população, que tende a colocar as escolhas do governo acima das recomendações dos agentes financeiros.

A preferência por maior atuação do Estado também aparece quando os brasileiros são confrontados com escolhas concretas de política econômica. Há apoio significativo a medidas frequentemente consideradas intervencionistas, como o controle dos preços dos combustíveis e a manutenção do controle estatal sobre empresas estratégicas, em detrimento das privatizações. O mesmo ocorre no debate sobre juros: a autonomia do Banco Central não parece ser um valor particularmente mobilizador para a população. Entre quatro narrativas testadas, 43% preferem a ideia de que o governo deve pressionar o Banco Central a reduzir os juros, enquanto apenas 13% concordam que juros elevados são necessários para controlar a inflação.

A tributação dos mais ricos aparece como uma fonte relevante de recursos para financiar uma maior atuação do Estado. O levantamento Ipsos/GFNE mostra que 53% dos brasileiros concordam que “o governo deveria taxar as grandes fortunas para financiar investimentos públicos”, enquanto 27% consideram que essa medida prejudicaria a economia; 21% não sabem ou preferem não responder. O resultado reforça a percepção de que há espaço para uma agenda de maior progressividade tributária, associando a redução das desigualdades ao financiamento de investimentos públicos.

A pesquisa também comparou diferentes “plataformas políticas” e constatou que uma agenda da “nova economia” centrada no combate a aumentos excessivos de preços em setores essenciais, na tributação dos super-ricos e no reconhecimento do trabalho de cuidado apresenta desempenho superior ao de uma plataforma genérica da centro-esquerda tradicional no confronto com a plataforma da direita. Essa vantagem é particularmente relevante entre os eleitores que desaprovam o governo Lula, sugerindo que uma agenda econômica mais concreta e conectada às condições materiais de vida pode furar a polarização.

Há muito mais na pesquisa Ipsos/GFNE, mas esses resultados já apontam para uma conclusão importante: o brasileiro rejeita o neoliberalismo, entendido como uma agenda que reduz o papel do Estado, subordina a política econômica aos mercados e naturaliza a prosperidade dos mais ricos como parte do bem-estar coletivo. Em seu lugar, aparece uma preferência por um Estado ativo, capaz de orientar o desenvolvimento, enfrentar o custo de vida, controlar setores estratégicos, reduzir os juros, tributar os mais ricos e ampliar a segurança econômica das famílias.

Existe, portanto, terreno fértil para uma nova agenda econômica que traduza essas preferências em propostas concretas, voltadas não apenas à redução do custo de vida, mas também à melhoria da qualidade de vida, com mais tempo livre, maior autonomia sobre o trabalho e mais controle das pessoas sobre suas próprias vidas.