Caso de Ariana Grande revive debate sobre “culto à magreza” na internet

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Caso de Ariana Grande revive debate sobre “culto à magreza” na internet

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Nos últimos dias, a cantora Ariana Grande anunciou uma pausa na carreira. Segundo a imprensa norte-americana, a decisão reflete o desejo da artista de se afastar da mídia após o que foi descrito por sua equipe como um “escrutínio incessante” sobre seu peso corporal.

Desde o lançamento do seu novo álbum, a artista tem sido alvo de internautas que afirmam que ela estaria “magra demais“.

A onda de críticas se intensificou após a estreia do videoclipe da música Petal, no qual, segundo fãs, Ariana aparentaria estar muito abaixo do peso.

Na produção, a artista tece, justamente, uma crítica à pressão estética que Hollywood impõe às mulheres. Já nos comentários do vídeo, parte do público reagiu preocupada com a aparência da artista, levantando a hipótese de que ela esteja enfrentando um transtorno alimentar.

Ariana não confirmou qualquer problema. Ainda assim, as imagens serviram de gatilho para discussões sobre o tema, em especial diante da ascensão do chamado “culto à magreza” na internet nos últimos anos.

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O que são transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas caracterizadas por padrões inadequados de comportamento alimentar.

Eles incluem uma variedade de condições, como anorexia nervosa, bulimia nervosa e compulsão alimentar.

Essas condições afetam a quantidade e a qualidade dos alimentos consumidos, mas também podem interferir na forma como o organismo absorve os nutrientes. Elas resultam da união de diversos fatores, como aspectos biológicos, genéticos, psicológicos e socioculturais.

Apesar das especulações sobre a saúde de Ariana Grande, por exemplo, especialistas advertem que aparência não é diagnóstico.

Embora mudanças no corpo possam ser um sinal de alerta, elas, sozinhas, não permitem identificar um transtorno alimentar ou mesmo um estado de desnutrição.

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Por isso, é preciso observar também os comportamentos, como a fuga de situações sociais que envolvam refeições ou a prática de exercícios de forma compulsiva.

Além disso, embora corpos magros não sejam sinônimo de falta de saúde, os extremos devem ser motivo de preocupação.

“O que temos observado entre algumas celebridades parece indicar mais uma situação de desnutrição do que simplesmente um corpo magro e saudável“, alerta o psiquiatra Fabio Tápia Salzano, que integra a coordenação do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Diante desse sinais, a recomendação do médico é acolher a pessoa e evitar culpabilizá-la. Em vez de apontar alterações na aparência ou cobrar uma mudança de comportamento, o ideal é demonstrar preocupação, estar disponível para conversar e incentivar a busca por ajuda profissional.

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Como o culto à magreza influencia hábitos

Embora muitos acreditem que os casos de transtornos alimentares tenham disparado nos últimos anos, Salzano faz uma conta diferente.

Segundo o médico, que atende pacientes com o quadro há três décadas, o que existe é um aumento dos diagnósticos. “As pessoas se dão conta com mais facilidade quando alguém está com um problema”, avalia.

No Ambulim, os números de atendimento estão praticamente em platô: são realizadas cerca de 6,2 mil consultas ambulatoriais por ano e, desse total, aproximadamente 110 a 130 pacientes precisam de internação hospitalar.

Ainda assim, o psiquiatra observa indícios de que os padrões de beleza estão mais restritivos atualmente — tal como já foram no passado.

“Os modelos de beleza vêm em ondas. Periodicamente, observamos um culto à forma corporal muito magra”, diz o médico.

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Para ele, esse padrão ganhou força nos anos 1990 e parece estar voltando: “de dois anos para cá, o mercado da moda voltou a trazer modelos com corpos excessivamente magros.”

Nas redes sociais, esse ideal encontra terreno fértil para se espalhar. Movimentos e comunidades online passaram a associar magreza extrema a sucesso e felicidade, romantizando, muitas vezes por trás de humor ou de estética aspiracional, corpos abaixo de um peso saudável.

Por exemplo, há cerca de dois anos, a web foi tomada pelo meme “magras, magras, magras!”, um áudio viral, comemorativo, que passou a ser associado a conteúdos que exaltam a magreza como ideal estético.

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No Instagram, as hashtags #magras, #magrass e #magrasmagrasmagras reúnem mais de 456 mil publicações, incluindo conteúdos que reproduzem frases como “a felicidade é magra” e recomendam dietas extremas.

Em um extremo ainda mais preocupante, está o chamado “EDtwt” — abreviação de Eating Disorder Twitter, ou “Twitter de transtornos alimentares”.

Esse nicho de conteúdos, que existe na plataforma X (antigo Twitter), reúne perfis e comunidades que compartilham publicações explicitamente relacionadas às desordens alimentares.

Embora parte dessas postagens possa ter caráter de apoio ou discussão sobre o tema para pessoas que enfrentam a condição, parte envolve o compartilhamento de comportamentos de risco.

Para ter ideia, uma pequena pesquisa, apresentada no Congresso Nacional de Alimentos e Nutrição, analisou 18 perfis brasileiros ligados à comunidade e buscou traduzir uma série de códigos e siglas usadas pelo grupo tanto como forma de pertencimento como para suavizar a gravidade dos comportamentos compartilhados.

Segundo a análise, foram identificadas diversas expressões que escondem diálogos sobre temas como restrição alimentar, medo de ganhar peso, comportamentos compensatórios (como indução ao vômito) e busca por um corpo extremamente magro.

Por outro lado, como aponta Salzano, os discursos online podem levar, principalmente, adolescentes e jovens a acreditarem que o sucesso — profissional e até nos relacionamentos — depende de alcançar um determinado padrão corporal, levando à frustração.

“Influenciadores que associam magreza a sucesso e incentivam dietas restritivas vão dizer que o biotipo que é típico do brasileiro é, na verdade, o de alguém com obesidade“, diz. “Tudo isso pode reforçar a ideia de que é preciso controlar o corpo a qualquer custo”, completa.

Quando a preocupação com o corpo se torna um transtorno?

Existem pouquíssimos estudos brasileiros voltados ao campo dos transtornos alimentares. Por isso, considera-se difícil definir qual a incidência dessas condições no país.

Uma revisão sistemática estimou que a prevalência média de casos é de 0,1% para anorexia nervosa, 1,16% para bulimia nervosa e 3,53% para transtorno de compulsão alimentar.

Já outra pesquisa, realizada em 16 países (incluindo o Brasil), aponta que um em cada cinco jovens de 6 a 18 anos tem transtorno alimentar.

Em uma sociedade hiperconectada e cada vez mais preocupada com a aparência, como diferenciar uma preocupação saudável com a dieta de comportamentos que podem indicar um transtorno alimentar?

Segundo Salzano, o sinal de alerta aparece quando o controle do corpo começa a provocar sofrimento e interferir na rotina.

“A pessoa pode começar a se questionar constantemente se está comendo o suficiente para emagrecer ou se deveria reduzir ainda mais a quantidade de alimentos”, comenta.

Esse comportamento pode aparecer na forma de restrições alimentares, redução da quantidade ingerida ou diminuição do número de refeições. Depois, a relação ruim com a comida pode começar a afetar a vida social.

“O adolescente, por exemplo, pode inventar desculpas para não fazer as refeições com a família ou evitar encontros que envolvam alimentação”, resume o psiquiatra.

“Então, de novo, a comida passa a ser um problema porque ‘eu quero comer menos’”, conclui.

Evitando comportamentos de risco

A nutricionista Camila Duarte Soldati, mestranda em Nutrição e Metabolismo pela USP e aluna do curso de Nutrição Clínica e Comportamento Alimentar (Nucca), afirma que a linha entre buscar uma alimentação mais saudável e desenvolver uma relação obsessiva com a comida é tênue.

“Ainda que algumas pessoas relatem ausência da prática de comportamentos restritivos, os pensamentos sobre a restrição alimentar ainda podem estar presentes“, diz.

Um dos principais fatores ligados ao surgimento dos transtornos alimentares é a prática frequente de dietas restritivas.

“Pessoas que estabelecem uma lista de alimentos ‘proibidos’, deixando de consumi-los mesmo quando sentem vontade, estão, na verdade, reprimindo essa vontade, que tende a voltar aumentada e leva ao consumo exagerado destes itens”, explica.

Isso porque, normalmente, o consumo é acompanhado pela sensação de culpa ou fracasso, que aumenta o desejo do indivíduo em retornar à proibição, dando início ao ciclo de dietas.

“A longo prazo, isso pode gerar consequências para a saúde física e psicológica“, avalia.

Por isso, o tratamento dos transtornos alimentares deve ser sempre multidisciplinar, reunindo psiquiatra, psicólogo, nutricionista e outros profissionais conforme a necessidade de cada caso.

“O objetivo é retirar o peso do centro da abordagem, colocando o cuidado com a pessoa, e não com a doença, no centro do tratamento, para que o paciente possa desenvolver uma relação mais saudável consigo mesmo e com a comida”, explica Soldati.

Em casos mais graves, sobretudo de anorexia nervosa e bulimia nervosa, a internação pode ser necessária. “De modo geral, o foco está na qualidade de vida, no prazer em se alimentar e no bem-estar com o próprio corpo”, resume.

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