Como exemplo de disciplina de investimento, ele citou o New York Times: com 12,3 milhões de assinantes digitais, a empresa apostou em pacotes e múltiplos produtos — de jogos a podcasts — para aprofundar o relacionamento direto com o usuário logado, e preferiu o litígio a um acordo rápido de licenciamento com empresas de IA. Samia usou o próprio UOL como prova de que essa disciplina compensa: lançado pela Folha de S.Paulo há 30 anos para antecipar o consumo digital de notícias, o grupo já colocou mais de 100 produtos no mercado — alguns hoje empresas independentes —, soma 18 mil funcionários e receita total de US$ 5 bilhões. Dentro dele, a UOL CS, que concentra o núcleo editorial, responde pela maior audiência da internet brasileira (75% de alcance), com 1.200 funcionários, 350 deles jornalistas, e por uma receita que deixou de depender de assinaturas — 80% do total em 2000 — para se equilibrar hoje entre assinaturas, publicidade, produtos digitais, ingressos online, mídia OOH, TV e eventos.
Tecnologia mais próxima da redação

“A IA não vai substituir seus funcionários; funcionários que usam IA vão substituir os que não usam.” Samia listou seis competências que toda empresa de mídia precisa desenvolver agora — engenharia de prompt, automação, alfabetização em dados, mentalidade de produto, análise de audiência e governança de IA — e defendeu a troca de departamentos isolados por células multifuncionais, fluxos de trabalho turbinados por IA e decisões mais rápidas e descentralizadas. No UOL, a equipe de tecnologia tem um time que se reporta diretamente à direção de conteúdo, operando dentro da redação — um exemplo, segundo ele, de como aproximar tecnologia e jornalismo acelera decisão e produto.
Na conversa com Martha Ramos, Samia aprofundou o argumento sobre marca e confiança. Disse que a tecnologia hoje permite conversas diretas com o leitor e que, com a mídia fragmentada, o caminho não é mais perseguir audiências gigantes, mas entender o nicho e entregar exatamente o que ele busca. Para ele, a marca é o ativo mais valioso de uma empresa de mídia: sem reconhecimento e credibilidade próprios, a dependência da busca do Google se torna um risco existencial. Em um cenário de fake news e deepfakes gerados por IA, o processo jornalístico rigoroso ocupa o espaço de conteúdos publicados às cegas nas redes sociais.

