Colesterol: por que esperar o primeiro infarto para descobrir que ele estava alto?

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Colesterol: por que esperar o primeiro infarto para descobrir que ele estava alto?

Uma das frases que mais escuto no consultório é: “Doutor, eu nunca senti nada”. E isso faz todo sentido. O colesterol alto não provoca dor, falta de ar, tontura ou qualquer outro sinal que chame atenção. Na maioria das vezes, ele passa anos agindo silenciosamente enquanto pequenas placas de gordura se acumulam nas artérias.

Por isso, para muitas pessoas, o primeiro sintoma da doença pode ser justamente o mais grave: um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).

A boa notícia é que, na maioria dos casos, essa história pode ser evitada.

O colesterol alto começa muito antes dos sintomas

A aterosclerose é um processo lento. Durante anos ou décadas, o excesso de colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”, favorece a formação de placas nas paredes das artérias.

Essas placas podem crescer lentamente sem provocar qualquer desconforto. O problema surge quando reduzem significativamente a passagem do sangue ou se rompem de forma repentina, desencadeando um infarto ou um AVC.

É justamente por isso que esperar sintomas para investigar o colesterol é um erro. Na prevenção cardiovascular, o objetivo é agir antes que o primeiro evento aconteça.

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Nem todo mundo deve esperar os 40 anos

Existe outra mudança importante na cardiologia moderna.

Durante muito tempo, acreditava-se que a investigação do colesterol poderia começar apenas na meia-idade. Hoje sabemos que isso não vale para todos.

Pessoas com histórico familiar de infarto precoce, AVC, colesterol muito elevado ou suspeita de hipercolesterolemia familiar devem iniciar essa investigação muito antes.

Em algumas famílias, alterações genéticas fazem com que o colesterol permaneça elevado desde a infância. Sem tratamento, essas pessoas acumulam um risco muito maior de desenvolver doença cardiovascular ainda na fase adulta.

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Identificar esses pacientes precocemente permite iniciar mudanças no estilo de vida e, quando necessário, tratamento medicamentoso antes que as artérias sofram danos importantes.

O tratamento também evoluiu

As estatinas continuam sendo a principal base do tratamento para redução do colesterol e possuem benefícios amplamente comprovados na prevenção de infarto e AVC.

Nos últimos anos, entretanto, surgiram novas alternativas para pacientes que apresentam risco cardiovascular muito elevado, hipercolesterolemia familiar ou não conseguem atingir as metas apenas com os medicamentos tradicionais.

Entre elas estão terapias capazes de reduzir intensamente o colesterol LDL por mecanismos diferentes das estatinas. Os inibidores da PCSK9, como o evolocumabe, e o inclisirana, um medicamento baseado em RNA de interferência, permitem reduções expressivas do LDL com esquemas de aplicação pouco frequentes, ampliando as possibilidades terapêuticas para pacientes selecionados.

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Esses tratamentos não substituem hábitos saudáveis nem são indicados para todas as pessoas, mas representam um avanço importante para grupos de maior risco.

A prevenção começa no laboratório, não na emergência

A cardiologia vive uma mudança de paradigma. O foco deixou de ser apenas tratar quem já sofreu um infarto e passou a identificar quem apresenta maior risco antes que o problema aconteça.

Isso envolve conhecer o histórico familiar, controlar pressão arterial, diabetes, peso corporal, praticar atividade física, não fumar e realizar exames laboratoriais quando indicados. Esperar o primeiro infarto para descobrir que o colesterol estava alto significa perder uma oportunidade valiosa de prevenção.

Hoje, dispomos de exames capazes de identificar precocemente alterações lipídicas, medicamentos cada vez mais eficazes e décadas de evidências mostrando que reduzir o colesterol diminui significativamente o risco de infarto e AVC.

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O grande desafio já não é saber como prevenir. É fazer com que mais pessoas descubram seu risco antes que a doença se manifeste.

*Carlos Alberto Pastore é cardiologista, livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro Brazil Health.

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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