Comissão da ONU alerta que Super El Niño pode levar milhões à pobreza e tirar 2% do PIB da América Latina; entenda

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Comissão da ONU alerta que Super El Niño pode levar milhões à pobreza e tirar 2% do PIB da América Latina; entenda


Primavera começa hoje com El Niño forte
Um episódio extremo do El Niño pode reduzir em pelo menos 2% o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe ao longo de três anos e levar até 4,8 milhões de pessoas adicionais à pobreza até o fim da década, segundo estimativa da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU).
A estimativa consta de um relatório especial divulgado nesta segunda-feira (21). O estudo analisa os possíveis impactos econômicos, sociais e ambientais de um episódio de El Niño de forte intensidade na região.
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Segundo a Cepal, cerca de metade da perda econômica estimada ocorreria já no primeiro ano do fenômeno. A redução da renda das famílias também poderia ampliar o número de pessoas em situação de pobreza em relação a um cenário sem El Niño.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança altera a circulação da atmosfera e pode modificar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
A intensidade do fenômeno pode variar. No cenário analisado pela Cepal, um episódio extremo teria efeitos mais severos sobre a economia e sobre setores como agricultura, energia e pesca.
Há risco de um ‘Super El Niño’?
Sim. Segundo o relatório da Cepal, projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027 (primavera e verão no Brasil).
A NOAA também estima 69% de probabilidade de o fenômeno atingir uma magnitude histórica, classificada no relatório como “Súper El Niño”. Nesse cenário, a temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4 apresentaria anomalias superiores a 2,5°C ou 3°C.
Isso não significa, porém, que a perda de 2% do PIB ou o aumento da pobreza necessariamente ocorrerão. Esses números são estimativas da Cepal para um cenário de El Niño extremo.
Quais seriam os impactos na economia?
Os efeitos não seriam distribuídos igualmente entre os países ou setores da economia. A Cepal prevê impactos sobre o PIB, inflação, pobreza e produção e destaca riscos especialmente para energia, agricultura, pesca e infraestrutura.
Um dos principais pontos de atenção é o setor elétrico. Segundo o relatório, vários países da América Latina dependem fortemente da geração hidrelétrica: em alguns deles, as hidrelétricas respondem por mais de 70% da matriz elétrica.
Com menos chuva e temperaturas mais altas, os reservatórios podem ficar sob pressão justamente quando aumenta a demanda por eletricidade para refrigeração e ar-condicionado.
A Cepal estima que, entre outubro e dezembro de 2026, a probabilidade de déficit de precipitação chega a 60% em determinadas áreas, enquanto 31,1% do território regional estaria em alerta alto. Grandes cidades, como São Paulo, Lima e Cidade do México, poderiam enfrentar aumento da demanda por energia em períodos de menor disponibilidade hídrica.
E o impacto no agronegócio?
A agricultura também está entre os setores mais vulneráveis.
➡️ Com base em análises da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Cepal aponta probabilidade superior a 70% de ocorrência de secas que afetem a atividade agropecuária nos próximos meses em áreas do Corredor Seco da América Central, além de regiões da Colômbia, Venezuela e países do Caribe, como Cuba, República Dominicana e Haiti.
O risco envolve redução das colheitas, menor disponibilidade de alimentos e de forragem para os animais e perda de renda para produtores rurais.
Pesca também pode ser afetada
O El Niño também altera as condições do Oceano Pacífico e pode prejudicar a atividade pesqueira.
O aquecimento das águas enfraquece a subida de águas profundas e frias, um processo que leva nutrientes para a superfície e sustenta parte da cadeia alimentar marinha. Com menos nutrientes disponíveis, espécies como anchoveta, sardinha e merluza podem migrar ou ter sua disponibilidade reduzida.
A Cepal cita episódios anteriores de intensidade excepcional nos quais as capturas pesqueiras da região caíram 52,7% em 1972-1973 e 26,9% em 1997-1998.
Por que o fenômeno pode aumentar a pobreza?
O impacto econômico do El Niño não fica restrito ao clima.
Uma quebra de safra, por exemplo, pode reduzir a renda de produtores e trabalhadores rurais e, ao mesmo tempo, pressionar os preços dos alimentos. Problemas na geração de energia podem elevar custos para empresas e consumidores. Já perdas na pesca afetam comunidades que dependem diretamente da atividade.
É a combinação desses efeitos que pode atingir a renda das famílias e aumentar o número de pessoas abaixo da linha de pobreza.
No cenário extremo analisado pela Cepal, até 4,8 milhões de pessoas adicionais poderiam entrar na pobreza até o fim da década em relação a um cenário sem El Niño.
O que os governos podem fazer?
A Cepal recomenda medidas para tentar reduzir os impactos antes que eles ocorram. Entre elas estão a criação de mecanismos financeiros para situações de emergência, investimentos em infraestrutura mais resistente a eventos climáticos, sistemas de alerta, proteção de famílias vulneráveis e medidas para reduzir a dependência de uma única fonte de geração de energia.
O órgão também recomenda o planejamento de estoques e recursos para períodos de seca, maior integração energética entre países e medidas para aumentar a eficiência no consumo de eletricidade.
A avaliação da Cepal é que medidas preventivas tendem a custar menos do que respostas adotadas apenas depois de uma emergência.