A Braskem já vem perdendo espaço para a concorrência externa. A companhia historicamente controlava entre 70% e 75% do mercado nacional de resinas plásticas, segundo relatórios enviados à CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Nos últimos anos, porém, as importações ganharam espaço e chegaram a 46% de participação, enquanto a fatia da Braskem caiu para cerca de 49%, segundo dados da Abiquim. No quarto trimestre do ano passado, a participação da Braskem especificamente no mercado de polietileno era de 43%, de acordo com relatório da XP Investimentos.
Um dos principais concorrentes são os Estados Unidos, que produzem plástico a custos cada vez menores. Enquanto a indústria brasileira e europeia utiliza o derivado de petróleo nafta como matéria-prima, as companhias americanas usam gás natural, principalmente etano, que permite produzir eteno a custos menores. A produção baseada em nafta custa entre US$ 200 e US$ 380 a mais por tonelada de plástico na comparação com as fábricas americanas. Os EUA ampliaram a oferta de etano nos últimos anos justamente para fabricar plásticos. O volume saltou de 1 milhão de barris por dia em 2012 para a média de 2,8 milhões em 2024, segundo o órgão oficial de estatísticas de energia do governo americano (EIA).
A queda das importações chinesas também pressiona a Braskem. Antes importadora, a China passou a produzir polipropileno e polietileno em grande escala. Em 2020, o país importou 6,1 milhões de toneladas de polipropileno, contra 300 mil toneladas no final de 2025. Já as importações de polietileno de alta densidade recuaram de 9 milhões para 2,6 milhões de toneladas no mesmo período, segundo dados da ICIS (Independent Commodity Intelligence Services).
Como o mercado interno da China não cresceu no mesmo ritmo da produção, as petroquímicas começaram a vender os excedentes no exterior. O país deve exportar até 4 milhões de toneladas de polipropileno este ano, aumentando a pressão sobre os preços do insumo no mercado internacional. Só na Ásia, o preço alcançou as menores médias em 18 anos, segundo a DCE (Dalian Commodity Exchange). Como consequência, as petroquímicas que produzem a custos maiores, como a Braskem, veem suas margens de lucro encolherem, pressionando o caixa da companhia.
Para defender a produção nacional, o Brasil aplica tarifas de proteção contra concorrência desleal (antidumping). Os alvos são as resinas dos EUA (43,7%), China (21%) e Canadá (8,2%). “Se houver um colapso na Braskem, o governo teria que abrir mão deste recurso para facilitar a importação”, afirma Dantas, que defende a necessidade de salvar a produção nacional.
Mais do que discutir atratividade para capital estrangeiro, o que está em jogo é a manutenção de um setor que já vive um processo de desindustrialização.
Eric Gil Dantas, economista
