Por que evangélicos deveriam reconsiderar a eutanásia – 26/08/2026 – Cotidiano

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Por que evangélicos deveriam reconsiderar a eutanásia – 26/08/2026 – Cotidiano

Nessa semana, li que apenas 34% dos brasileiros evangélicos concordam com a possibilidade da morte assistida. Este número é o menor entre as religiões pesquisadas. Escrevo como psicóloga e como cristã e vou refletir apenas sobre a situação de pessoas com doenças terminais, com perspectiva de muito sofrimento. Não se trata de defender a eutanásia em outros contextos.

Primeiramente, pretendo explicar a quem não é evangélico por que a maior parte de nós tem essa perspectiva; em seguida vou me dirigir a evangélicos como eu, e apresentar irmãos da fé que defendem a liberdade para quem quiser seguir esse caminho.

Tentei imaginar as razões para tal rejeição da morte assistida. Em primeiro lugar deve ser porque nós, evangélicos, consideramos a vida como presente de Deus, recebido no início da nossa existência. Logo não nos cabe devolver este presente. Deveríamos deixar Deus decidir sobre o término da vida.

Outro motivo para a rejeição da morte assistida está no papel central do sofrimento de Cristo na nossa fé. Sua caminhada até a cruz é fonte de redenção, auxílio e consolo em tempos atribulados. Ele, que passou por dores, prometeu nos fortalecer em nossas aflições.

Pode soar leviano afirmar tais verdades da fé longe de pessoas em grande sofrimento e distante de pacientes condenados à vida vegetativa. Será que ainda é coerente com o amor cristão pregá-las para famílias como a de Silas Jr., 29 anos, portador de doença degenerativa em estado terminal, que mesmo com a dosagem máxima diária de morfina sofria dores constantes?

Ou corremos o risco de agir como fariseus, que entendiam as leis sagradas até as minúcias e culpabilizavam todos que não observavam cada detalhe. Jesus chamou isso de colocar cargas pesadas nos ombros dos outros. (Mateus 23.4)

Muitas vezes, por ansiedade perante perguntas difíceis, recorremos a respostas simplistas, como “é pecado”, ou “é proibido”. Mas esse tema é muito amplo para tal encurtamento.

Conversei com meu ex-colega de docência, o teólogo Rudolf von Sinner, suíço radicado no Brasil, pesquisador de bioética e professor na PUC-PR. Ele nos familiariza com a postura das igrejas protestantes em seu país, onde se pratica o suicídio assistido. Inclusive causa surpresa a informação, em seu artigo “Quem Decide Sobre o Fim da Vida?”, de que a Exit (“saída”), a mais antiga e importante associação, foi fundada por um evangélico, o pastor Rolf Sigg.

A Exit seria incompatível com a fé cristã? Seria sinal das heresias do fim dos tempos, ou uma síntese coerente entre liberdade humana e misericórdia divina? As diretrizes da Exit afirmam que as situações dos pacientes são complexas, exigem tempo de reflexão e não podem ser submetidas a generalizações.

Talvez seja essa postura aberta que tenha orientado as respostas dos 34% de evangélicos que concordaram que seria moralmente aceitável o médico ajudar um paciente terminal a encerrar a vida, a pedido dele. Talvez eles tenham lembrado que a liberdade de decisão é um dos pilares da fé cristã. Ainda mais quando se vive num estado laico, onde nem todos professam a mesma religião. Deus não quer robôs. E se compadece das fraquezas humanas. (Hebreus 4.15,16)

Von Sinner também questiona a frase dita sem pestanejar no meio cristão: “Quem decide sobre o fim da vida é Deus”. Será mesmo Deus? Ele argumenta: “Parece que Deus se despediu já há tempo dessa tarefa. Os seres humanos mexem diariamente com ela, prorrogando-a ou abreviando-a. Não conseguem dominá-la, mas também não existe mais morte ‘natural’.” (“Quem Decide Sobre o Final da Vida?”, p. 294)

Pergunto a meus irmãos e irmãs em Cristo: será que nossa imagem severa de Deus impede que vejamos a misericórdia divina acolhendo os que decidem antecipar sua morte? Talvez estejamos contaminados com a superstição popular de que “suicida não entra no Céu” —afirmação sem respaldo bíblico!

Como psicanalista, suspeito que esse tabu foi criado por nossa mente, formando uma crença religiosa coletiva para proteger a vida de decisões tomadas em momentos de desespero. As condenações silenciosas a alguém que não suportou viver podem ser carregadas desse tabu, e Daniel Guanaes mostra como o silenciamento sobre a morte voluntária traz ainda mais dor à família e à comunidade.

O reverendo Silas Amaral Pinto, também capelão, comenta que os cristãos sofrem de “fobia de morte”, e, por isso, têm dificuldade de pensar em morte assistida. Em suas atividades, observou que, em comparação com outras religiões, os cristãos eram os que mais temiam a morte. Ele fala com experiência pessoal: é pai do paciente Silas Jr, que veio a falecer depois de alguns meses na condição descrita acima.

Ao lembrar da agonia de seu filho, concluiu que seria mais coerente com o mandamento de Jesus de amar ao próximo como a si mesmo (Mateus 22.39) considerar a eutanásia nos estertores da vida.

Ele comenta: “Permitir que um indivíduo com doença terminal suporte sofrimento agonizante e prolongado é um ato de falta de amor.” A eutanásia, nesta perspectiva, é misericórdia e compaixão, ancorada no livre arbítrio dado por Deus aos humanos, exercido com responsabilidade e racionalidade. Paradoxalmente, expressão de amor.