
Poucas doenças revelam tão bem as contradições da medicina atual quanto a endometriose.
Acumulamos décadas de conhecimento científico, temos técnicas cirúrgicas cada vez mais precisas e dispomos de métodos de imagem capazes de mapear o problema antes mesmo de uma incisão.
Mas, ao mesmo tempo, milhões de mulheres ainda passam anos convivendo com dor até receber um diagnóstico, e muitas continuam ouvindo que “cólica é normal”. É dessa distância entre o que já sabemos e o que ainda falhamos em oferecer que precisamos partir.
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A endometriose é uma doença inflamatória crônica e dependente do hormônio estrogênio. Nela, um tecido semelhante ao endométrio se implanta fora do útero e provoca inflamação, aderências e distorção da anatomia.
Estima-se que atinja cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, um contingente que, no Brasil, se conta em milhões. Não é um problema de nicho nem uma queixa menor. É uma questão de saúde pública, que atravessa a vida produtiva, reprodutiva e emocional.
Suas manifestações são variadas e nem sempre fáceis de reconhecer. A dor menstrual intensa e progressiva, a dor pélvica que persiste fora do período menstrual, o desconforto durante as relações sexuais, os sintomas intestinais e urinários que pioram na menstruação e a dificuldade para engravidar estão entre os sintomas mais comuns.
Nas formas profundas, a doença pode acometer intestino, bexiga e as regiões mais delicadas da pelve, o que exige do cirurgião muito mais do que habilidade manual: exige leitura anatômica apurada.
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Há ainda um sofrimento que os exames não mostram. O impacto sobre o trabalho, os estudos, os relacionamentos e a saúde mental é real, e a dor crônica adoece tanto o corpo quanto o ânimo. Ignorar essa dimensão é tratar pela metade.
O primeiro grande desafio continua sendo o tempo até o diagnóstico. O intervalo entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença pode ser contado em anos, um atraso inaceitável, alimentado pela naturalização da dor feminina e pela falta de suspeita clínica.
Mas houve avanços. Hoje, a ressonância magnética e o ultrassom transvaginal com preparo, quando realizados por profissionais capacitados, permitem identificar a endometriose com precisão e planejar a cirurgia sem recorrer à laparoscopia apenas para diagnosticar.
Esses recursos, porém, ainda estão mal distribuídos. Levar o diagnóstico de excelência a todas as regiões talvez seja hoje a fronteira mais urgente, porque cada ano perdido cobra seu preço em dor, infertilidade e sofrimento.
O segundo desafio é o tratamento, e aqui não existe conduta única. Cada mulher exige uma decisão individualizada, que leve em conta os sintomas, o desejo de ter filhos, a extensão da doença e a qualidade de vida.
O manejo clínico e hormonal responde bem a muitos casos. A cirurgia, quando indicada, deve ser minimamente invasiva, capaz de preservar função e fertilidade. A técnica evoluiu de forma notável. A videolaparoscopia e a cirurgia robótica ampliaram nossa capacidade de operar com segurança em terrenos difíceis, e a preservação dos nervos pélvicos mudou o horizonte dos resultados urinários, intestinais e sexuais.
Ainda assim, é preciso humildade. Nem toda tecnologia agrega valor, e o excesso de intervenção também é um erro. Saber quando operar e quando aguardar vale tanto quanto saber operar bem.
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Por isso defendo com convicção o modelo multidisciplinar. A endometriose não se resolve apenas na sala cirúrgica.
Nutrição, fisioterapia pélvica, manejo da dor e cuidado com a saúde mental atuam ao lado do ginecologista, em um cuidado que enxerga a mulher inteira, e não apenas o foco da doença.
Quando a dor deixa de ser um sintoma e se torna a própria doença, o tratamento precisa mudar de lógica. Foi esse retrato, do estado da arte sobre a condição aos impasses atuais, que levamos ao 10º Congresso Brasileiro de Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva e Endometriose, realizado neste mês em São Paulo.
Reunimos nomes nacionais e internacionais em torno dos temas que definem a especialidade. Discutimos a endometriose profunda e intestinal, as fronteiras do diagnóstico por imagem, a histeroscopia moderna e os limites da cirurgia robótica. Uma mesa foi dedicada ao tratamento multidisciplinar. Também oferecemos treinamento prático de alto nível, porque técnica cirúrgica se aprende com as mãos; não só na teoria.
Talvez o debate mais instigante tenha sido sobre o futuro. Reservamos uma sessão à inteligência artificial na cirurgia minimamente invasiva, do consultório ao pós-operatório. Discutimos como a tecnologia pode encurtar o caminho do diagnóstico, personalizar condutas e, no limite, abrir espaço para a cirurgia automatizada.
Fizemos isso com senso crítico, perguntando com franqueza o que a IA de fato entrega e o que ainda é promessa. Esse equilíbrio entre entusiasmo e prudência deve guiar a incorporação de qualquer novidade à medicina.
Para onde vamos a partir daqui? A ciência aponta vários caminhos, e eles se somam.
Buscamos diagnósticos mais precoces, apoiados por exames com biomarcadores que ainda estamos por encontrar. Queremos entender melhor a origem e os mecanismos inflamatórios da doença para tratá-la além do simples controle de sintomas. Trabalhamos por terapias mais individualizadas e de menor impacto, e por uma inteligência artificial que amplie o julgamento clínico sem substituí-lo.
Investir na formação de cirurgiões e radiologistas capazes de reconhecer a doença em suas formas mais sutis é igualmente decisivo, porque a melhor tecnologia se torna inútil sem olhos treinados para interpretá-la.
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Acima disso, é preciso uma mudança cultural que reconheça que a dor da mulher merece investigação, e não resignação.
Estamos em um ponto de virada. Já temos conhecimento, tecnologia e um número crescente de profissionais preparados.
O que falta é distribuir esse cuidado com equidade e diagnosticar na velocidade que a doença exige. A endometriose não pode mais ser tratada como fatalidade silenciosa.
Nosso compromisso é transformar o que aprendemos em acesso, diagnóstico no tempo certo e qualidade de vida para milhões de brasileiras.
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*Sérgio Podgaec é professor de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP, vice-presidente de Ensino e Educação em Saúde do Einstein Hospital Israelita e presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE).
