A divulgação do Ideb de 2025 traz menos novidades do que parece. Os estudantes brasileiros continuam aprendendo menos à medida que avançam na educação básica: o índice cai de 6,3 nos anos iniciais para 5,3 nos finais e 4,5 no ensino médio. Como costuma ocorrer quando um indicador vira a meta, as redes aprenderam a subir no índice pelo caminho mais curto: aprovar mais.
Em 20 anos, o rendimento, ou seja, a redução da reprovação e do abandono, respondeu por 54% do crescimento do Ideb da rede pública nos anos finais e por 67% no ensino médio. Só nos anos iniciais a aprendizagem foi o motor principal. Não por acaso, foi lá que o país mais avançou.
Esse caminho se esgotou. Com a aprovação perto do teto, o que resta para mover o índice é ensinar.
Que ninguém leia aqui uma defesa da reprovação. Reprovar é ruim: não recupera a aprendizagem perdida e empurra o aluno para o abandono. Em 2005, 1 em cada 4 estudantes dos anos finais da rede pública não era aprovado; corrigir esse desperdício foi uma conquista, não um truque. O atalho não está em aprovar mais, mas em aprovar mais sem ensinar mais.
A edição de 2025 pede leitura atenta. Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte lideram a variação do Ideb no ensino médio, mas dois terços do ganho gaúcho e 94% do potiguar vieram do aumento da aprovação. Aprovação tem teto; aprendizagem, não.
As exceções recentes são redes que elevaram o índice sobretudo pela aprendizagem: Piauí e Florianópolis.
O Piauí partiu do último lugar do ensino médio estadual em 2005, com Ideb 2,3, e subiu nas dez edições seguintes, até na pandemia, quando o ganho veio da aprovação. O salto de aprendizagem veio agora: o estado tomou de Pernambuco a liderança do Nordeste e alcançou 4,9, com Goiás e Espírito Santo, número que só o Paraná supera. Quatro quintos do avanço entre 2023 e 2025 vieram da aprendizagem.
Foi o maior ganho de proficiência entre os estados: 20 pontos em matemática, quase o dobro do segundo colocado. A régua do Saeb, a mesma do 5º ano ao fim do ensino médio, permite dimensionar: 13 pontos separam, em matemática, a média do 9º ano da dos concluintes. O Piauí avançou mais do que isso em dois anos.
Não foi acaso. Em 2023, o governo estadual anunciou que faria da educação o eixo do seu projeto de desenvolvimento e mexeu na estrutura: universalizou o tempo integral no ensino médio (de 21% para 81% das matrículas, as maiores do país), integrou dois terços dos alunos à educação profissional e pôs sua avaliação própria a serviço da recomposição de aprendizagens, com metas acompanhadas escola a escola.
A ressalva é o resto do sistema. A rede estadual é, na prática, uma rede de ensino médio; o fundamental é dos municípios, e ali o estado, embora em alta, é meio de tabela, décimo no Ideb dos anos iniciais. Estender a colaboração dos programas de alfabetização com as prefeituras ao resto do ensino fundamental, com a mesma ambição de melhoria alcançada no ensino médio, é o próximo teste.
Florianópolis vinha de três quedas seguidas nos anos iniciais: de 6,2 em 2017 a 5,8 em 2023. A resposta da rede municipal, de 36 escolas na etapa, foi uma terapia de choque. Em 2025, veio o maior salto entre as capitais, 0,9 ponto no Ideb, com os maiores ganhos em português e matemática: 17 e 27 pontos. Como a aprovação já beirava 99%, 93% do avanço foi aprendizagem. Os anos iniciais e finais alcançaram os melhores resultados de suas séries históricas.
O termo choque é certeiro: a Secretaria de Educação se propôs, não sem resistência, a adotar medidas estruturais durante o ano letivo. Ampliação das aulas de português e matemática, 5º ano inteiro em tempo integral, material ajustado ao nível real das turmas, recomposição no horário regular, três avaliações por ano com devolutiva pedagógica, tutores nas escolas e formação de professores e gestores guiada por dados.
Os 27 pontos a mais em matemática equivalem a subir, em uma edição, um degrau inteiro da escala do Saeb. Em 2023, a rede estava abaixo da média das escolas públicas do país; em 2025, está 14 pontos acima, e a média cruzou o ponto de corte do aprendizado adequado. É resultado de uma edição. A avaliação de 2027 mostrará se ele se consolida.
O primeiro ciclo de metas do Ideb terminou em 2021, quando o próprio indicador deveria ter sido revisto. O mundo caminha para avaliações mais ricas enquanto o Brasil segue preso a um desenho que pouco mudou em 30 anos e só agora começa a ser atualizado. Sem atalhos, o foco terá de estar na aprendizagem e na redução das desigualdades, que a pandemia aprofundou.
Piauí, atualmente com o PT, e Florianópolis, com o Podemos, gestões de campos políticos opostos, mostram que isso não só é desejável, mas possível.
