O episódio de 2024 indica que a Bolsa responde ao ciclo global e ao ponto de partida do preço dos ativos, não apenas à taxa de juros do país.
Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital
Agora, o cenário é outro
Se a pausa de 2024 com a Selic em 10,50% deixou espaço para a Bolsa subir, congelar os juros em 13,75% não é a mesma coisa. Nesse patamar, a renda fixa pós-fixada — aplicação que acompanha a taxa básica, como Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária — passa a pagar até 11,5%. Para o investidor comum, é dinheiro garantido acima da inflação. “A taxa atual de 13,75% ao ano estabelece uma barreira muito alta para os ativos de risco, porque o prêmio oferecido pelas aplicações pós-fixadas é grande demais para ser ignorado pelo poupador”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
O impacto não é apenas sobre fundos conservadores. Também sente a diferença quem investe em títulos prefixados, aqueles em que a instituição define a taxa de retorno na hora da aplicação. Com os juros futuros travados, esses papéis perdem a chance de valorização rápida, o ganho extra para quem vende o título antes do vencimento. “Muitos entram e saem do investimento como se fosse renda variável por pura ansiedade ou necessidade de liquidez, quando o correto é compreender que as oscilações de preço são ajustes contábeis ao valor presente do papel”, explica Lima.
Para investidores mais experientes, a Bolsa ainda pode ser opção. “Acredito que valha a pena correr riscos na Bolsa. A Selic alta abre oportunidade para comprar ações de empresas mais descontadas, no aguardo dessa Selic cair para patamares menores. Comprar ações na Bolsa apenas quando a Selic cair deixará pouco espaço para ganhos expressivos, já que o mercado já terá precificado os ativos”, diz Augusto Parente, especialista em investimentos da AW Capital.
Alguns Fundos Imobiliários perdem com juros altos. Os que investem em prédios físicos, como shoppings e galpões, sofrem porque seu aluguel, mesmo isento de imposto de renda, rende cerca de 8% ao ano, bem menos que os mais de 11% ao ano das letras de crédito do agronegócio e imobiliárias, que também não pagam IR e ainda livram o investidor do risco de um inquilino atrasar ou um imóvel ficar vazio. Já os fundos que investem em títulos de dívida do setor imobiliário (fundos de papel) saem ganhando porque seus rendimentos acompanham os juros da economia, entregando retornos elevados.
