Eu diria até que 99,9% dos jogadores de futebol estão infelizes. Eles carregam um fardo muito pesado e têm uma enorme responsabilidade sobre os ombros. Ninguém se importa com o que eles realmente sentem, e você está em um mundo onde precisa ter um bom desempenho.
A frase acima é de Gaël Kakuta, ex-atacante com passagens pelo Lens, Chelsea e Rayo Vallecano que anunciou a sua aposentadoria no início de julho, após disputar a Copa do Mundo defendendo a República Democrática do Congo.
Em entrevista ao canal francês “Capté”, Kakuta falou sobre saúde mental no futebol e destacou o sentimento de solidão que os jogadores sentem ao longo de suas carreiras. Para o ex-jogador, a grande maioria de seus antigos colegas está “triste” e “usam máscaras” parar esconder o sentimento.
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— Você não sabe se seus relacionamentos são reais, algumas pessoas se isolam. Uma grande parte da população usa máscaras. Usa porque, seja em casa, com a família, nos relacionamentos com os amigos, será que são realmente vistos, ouvidos? –, questionou.
Kakuta revela depressão durante a carreira
Kakuta passou por um período de depressão enquanto jogava e viveu um momento de luto após perder a mãe. Segundo o jornal “L’Équipe”, o fim da sua passagem pelo Amiens e sua transferência para o Irã, onde atuou no Esteghlal Tehran em 2024, foram marcados por uma fase difícil na vida pessoal.
— É muito bonito fingir que está feliz, mas à noite, você dorme? Algumas pessoas podem ir a festas, outras jogar videogame; existem todos os tipos de dopamina que te tiram do contato com a realidade. Muitos fogem da solidão porque encarar a solidão é encarar a si mesmo — refletiu.
Larissa, da Grécia, foi o último clube que o jogador de 35 anos representou, na segunda metade da última temporada. Pela equipe, ele atuou em apenas 12 partidas, marcou um gol e serviu duas assistências. Durante o Mundial, ele foi convocado, mas não chegou a entrar em campo.
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Bellingham, Soucek, Bonmatí, Hayes… os desabafos sobre a saúde mental no futebol
A saúde mental no meio esportivo tem sido debatido ao longo dos anos, em diferentes modalidades. No futebol, o tema tem sido abordado cada vez mais por figuras importantes da modalidade.
No ano passado, a estrela do Real Madrid e da seleção inglesa, Jude Bellingham, destacou que chegar ao esporte de elite teve impacto nos aspectos psicológicos, e ressaltou a importância dos cuidados com a saúde mental. O meio-campista revelou como estar aberto ao diálogo foi importante durante a sua carreira.
— Tentei manter aquela imagem de atleta machão de ‘não preciso de ninguém’, mas a verdade é que preciso, como todo mundo. Se os atletas, aqueles que parecem ter o mundo aos nossos pés, conseguirem mostrar sua vulnerabilidade, isso abrirá um diálogo mais amplo para as pessoas que lutam no escuro — declarou o jogador em entrevista ao “Laureus”.
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Já Tomas Soucek viveu seu auge em campo durante 2022 e 2023 tanto no West Ham, quanto na seleção da Tchéquia. No entanto, fora de campo, ele enfrentava um drama silencioso. Soucek viveu “dois anos de horror” enquanto sofria de insônia e depressão.
Com vergonha de falar sobre os temas até mesmo com os pais, o destaque dos Hammers cogitou se aposentar porque não sabia lidar com o seu momento. O jogador revelou se sentir sozinho ao mesmo tempo que era aclamado por torcedores ingleses e tchecos.
Para conseguir trabalhar os seus sentimentos, o meia de 31 anos procurou assistência profissional de um psiquiatra e um médico, que foram fundamentais em sua recuperação.
— A pressão é implacável no futebol profissional. Fraquezas não são perdoadas. Se eu demonstrar vulnerabilidade, o adversário vai se aproveitar –, desabafou em sua biografia “Suk”, lançada em novembro de 2025.
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Já no futebol feminino, a vencedora de três bolas de ouro Aitana Bonmatí passou por uma cirurgia na fíbula, após uma lesão sofrida durante o treino com a seleção espanhola e, durante o momento, fez um desabafo sobre o desafio fora de campo, revelando que sentia a necessidade de diminuir o ritmo na carreira, após “chegar ao limite”.
— — Agora é hora de me reconstruir física e mentalmente. O futebol de elite te leva ao limite em todos os sentidos, e havia fatores que estavam me impedindo de aproveitar minha profissão e minha vida diária. Senti que era hora de diminuir o ritmo e, na verdade, pensei nisso, mas não o fiz, e a vida de repente me paralisou–, declarou.
Mas para além dos jogadores, o tema da saúde mental também afeta os treinadores. A técnica da seleção feminina dos Estados Unidos, Emma Hayes, também alertou sobre perigos que os treinadores sofrem no futebol de alto nível.
Durante o período em que foi introduzida ao Hall da Fama do Museu Nacional do Futebol, a inglesa abordou a morte do treinador Matt Beard, seu antecessor no comando do Chelsea, e a necessidade urgente de cuidar melhor da saúde mental dos técnicos.
— É uma perda enorme. A saúde mental é um assassino silencioso e os treinadores são seres humanos. Ainda temos muito trabalho a fazer para apoiar mais do que apenas os jogadores –, afirmou ao “The Guardian”.
