
Ler Resumo
Há momentos em que a história da medicina e a história do mundo se encontram. Estamos vivendo um deles.
Em março deste ano, caiu no Brasil a patente da semaglutida, o princípio ativo de Ozempic e Wegovy, abrindo caminho para versões mais baratas de um remédio que, em poucos anos, deixou de ser promessa para se tornar um divisor de águas no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. E o desfecho não poderia chegar em hora mais oportuna.
Pela primeira vez, o número de crianças e adolescentes com obesidade superou o de desnutridos no mundo, segundo o Unicef. São 391 milhões de jovens acima do peso — um em cada cinco. A humanidade, que por milênios lutou contra a fome, agora enfrenta um adversário inédito desde cedo: os quilos a mais. No Brasil, onde mais da metade dos adultos já está acima do peso, o retrato não é diferente.
O que parecia questão de estética tornou-se um assunto de saúde pública.
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O que significa a queda da patente
Vale entender o que essa “queda de patente” significa na prática.
Semaglutida é uma molécula complexa, e os produtos hoje registrados são classificados como biológicos. Por isso, o que veremos não serão genéricos no sentido clássico. Serão biossimilares ou análogos sintéticos — versões desenvolvidas para reproduzir o efeito da molécula original, avaliadas caso a caso pela Anvisa, com vários processos em análise.
A distinção parece técnica, mas importa: a segurança e a eficácia de cada nova versão precisam ser demonstradas, não presumidas.
E vamos dizer com todas as letras: podemos confiar na Anvisa. A agência brasileira é reconhecida internacionalmente como uma das autoridades reguladoras de referência, entre as mais respeitadas do mundo. Um produto que carrega seu registro passou por análise séria de qualidade, segurança e eficácia.
É justamente por isso que a chegada de opções legítimas e mais baratas nos dá ainda mais motivos para rejeitar os atalhos perigosos que a escassez e o preço alto ajudaram a espalhar.
Falo de fórmulas contrabandeadas, transportadas e guardadas em condições impróprias. De canetas falsificadas, que já circularam por aí sem ninguém saber o que havia dentro.
E, sobretudo, da manipulação em escala industrial: produtos fabricados aos milhares sob o rótulo de “manipulado”, burlando a lógica da manipulação — que existe para casos individuais — e escapando do controle exigido de qualquer indústria farmacêutica.
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O potencial de democratizar o tratamento
Feita a ressalva, o ponto central permanece. Genéricos e similares são, historicamente, o grande instrumento de democratização de qualquer tratamento.
Foi assim com os anti-hipertensivos, com os antirretrovirais que transformaram a aids em doença controlável, com as estatinas para o colesterol.
Quando a concorrência entra, o preço cai, e um remédio que era privilégio de poucos passa a caber no orçamento de muitos.
E é aqui que duas discussões se encontram.
Em 2025, a Conitec — comissão que avalia o que o SUS deve oferecer — recomendou não incorporar a semaglutida para obesidade por um motivo só: o custo, estimado em mais de 8 bilhões de reais.
A molécula acaba de entrar em reavaliação, o Ministério da Saúde já testa o tratamento em projetos-piloto, e as versões mais baratas são o que pode reequilibrar essa conta. É o preço que separa uma boa ideia de uma política pública realmente viável.
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O desafio da continuidade
Mas o acesso resolve apenas metade do problema. A outra metade tem um nome pouco glamouroso: manutenção.
Os estudos de mundo real são claros: cerca de um em cada cinco pacientes abandona o tratamento já nos primeiros três meses, e mais da metade o interrompe antes de completar um ano. E quem para cedo colhe pouco. Nas pesquisas, quem interrompeu logo emagreceu bem menos do que quem manteve o tratamento.
Nesse contexto, aliás, é preciso desfazer um mal-entendido.
Afinal, a obesidade é uma doença crônica, como a hipertensão ou o diabetes. Ninguém toma remédio para pressão por oito semanas e se considera curado.
Com a semaglutida é igual: ao parar, o peso tende a voltar, porque o que muda não é a força de vontade, e sim a biologia que regula fome e saciedade.
Acesso sem continuidade vira frustração — e, muitas vezes, o efeito sanfona que tanto se teme.
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Muito além do emagrecimento
Há outro equívoco a evitar.
Fala-se da semaglutida como se fosse apenas um medicamento para emagrecer, quase um artigo de vaidade. É uma leitura empobrecida do que temos em mãos.
Ela é excepcional para a obesidade, mas é igualmente notável para o diabetes tipo 2, para o qual foi criada.
E as evidências dos últimos anos ampliaram esse horizonte de forma impressionante. Estudos de grande porte mostraram redução de infartos e AVCs em pessoas com sobrepeso e doença cardiovascular.
A Anvisa aprovou a molécula para tratar a gordura no fígado com inflamação, uma das principais causas de cirrose. E pesquisas apontam benefício na doença renal crônica, na insuficiência cardíaca ligada à obesidade e até na dor da osteoartrite de joelho.
O fio que costura tudo isso é o seguinte: ao tratar o excesso de peso na raiz, esses medicamentos alcançam órgãos que sempre pagaram, silenciosamente, a conta da obesidade — o coração, os rins, o fígado…
Não é uma pílula, ou melhor, caneta da beleza, mas uma ferramenta para prevenir algumas das doenças que mais matam e adoecem os brasileiros.
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Acesso com orientação e constância
É preciso, claro, manter os pés no chão.
Nenhum medicamento substitui alimentação equilibrada, sono e movimento — e nenhum deve ser usado por conta própria, sem avaliação médica.
Mas seria míope não reconhecer o tamanho do que se anuncia.
Estamos prestes a tornar mais acessível um dos avanços terapêuticos mais importantes da nossa geração quando o mundo mais precisa dele.
O desafio, agora, é garantir que esse acesso venha com orientação, continuidade e bom senso.
A ciência fez a parte dela. Cabe a nós não desperdiçar a oportunidade.
*Carlos Eduardo Barra Couri é endocrinologista, pesquisador da USP de Ribeirão Preto, fundador e coordenador do Endodebate e colunista de VEJA.
