As seguidas crises na Argentina vêm reorientando as exportações brasileiras. “O principal fator é a crise econômica recorrente da Argentina, não uma substituição deliberada de parceiros”, avalia o professor de Economia e Finanças da FGV-SP, Gustavo Pessoa. As instabilidades no país vizinho reduziram sua capacidade de compra ao mesmo tempo que o Brasil passou a depender cada vez mais do comércio de commodities para a Ásia. Ainda assim, o vizinho ocupa o terceiro lugar no ranking de exportações brasileiras, atrás de China e EUA, e a quarta posição nas importações, superado também pela Alemanha.

Apesar dos desgastes políticos, o Mercosul garante as trocas comerciais. “O Mercosul tem mecanismos técnicos e políticos que mantêm o comércio funcionando entre os dois países”, afirma o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Roberto Uebel. Embora os conflitos ideológicos dificultem o diálogo para novos acordos comerciais, eles não interrompem o fluxo diário de mercadorias, diz.
Para fugir da briga política, empresas brasileiras e argentinas priorizam contratos e custos, diz Pessoa. “O setor privado olha demanda, preço, logística, câmbio, crédito e prazo de entrega”, diz o professor, que também é membro do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP). “O empresário atravessa ruídos políticos quando há contratos, mas não compensa sozinho a falta de financiamento, a escassez de dólares e a incerteza regulatória.”
Se essa blindagem de mercado enferrujar, o setor mais atingido será a indústria automotiva. Os recentes acordos comerciais da Argentina com a China afetam as montadoras instaladas no Brasil, “seguido por máquinas, produtos químicos, celulose e eletroeletrônicos”, diz Uebel.
A piora dessa parceria de manufaturados seria um obstáculo aos planos de reindustrialização do Brasil.
