Rituais religiosos liberam “coquetel químico” que ajuda a suportar dor, diz estudo

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Rituais religiosos liberam “coquetel químico” que ajuda a suportar dor, diz estudo

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Rezar ou praticar outros rituais religiosos em grupo. Está aí uma fonte ancestral de alívio para muita gente — e, agora, explicada por métodos científicos.

Um novo estudo, conduzido no Brasil e no Reino Unido, sugere que participar de atos religiosos coletivos pode liberar no cérebro um coquetel neuroquímico capaz de fortalecer vínculos sociais e, até, elevar o limiar de dor (ponto em que uma sensação começa a ser percebida como dolorosa).

Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the Royal Society B. A explicação, segundo os pesquisadores, pode estar em algo que estudos anteriores já mostraram: opioides produzidos naturalmente pelo organismo, como a beta-endorfina

Essas substâncias são pequenas proteínas capazes de bloquear sinais de dor e promover sensação de bem-estar. Além disso, estão envolvidas no sentimento de conexão entre sujeitos em grandes grupos.

Assim, costumam ser especialmente liberadas em experiências grupais. Por isso, a ideia do estudo recente foi testar se o mesmo aconteceria durante práticas religiosas.

É o que explica à VEJA SAÚDE o brasileiro Everton Maraldi, um dos autores do trabalho.

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“A ideia era entender o quanto a conexão entre as pessoas poderia impactá-las fisiologicamente de alguma forma. Então, escolhemos avaliar a percepção de dor“, explica Maraldi, pesquisador apoiado pela IDOR Ciência Pioneira, iniciativa filantrópica do Instituto DO’r de Ensino e Pesquisa.

A escolha se deu porque medir a liberação de opioides exigiria procedimentos invasivos, como uma punção na espinha. Assim, a equipe encontrou na dor autorrelatada uma forma de observar esse efeito indiretamente.

O que a pesquisa viu

Os cientistas chegaram às suas conclusões depois de visitar 24 centros religiosos dos dois países, onde acompanharam a rotina de 265 pessoas.

No Reino Unido, os voluntários eram cristãos de diferentes denominações. Já no Brasil, praticantes de umbanda nas capitais de São Paulo e Porto Alegre.

Antes e depois das celebrações, os participantes responderam a questionários sobre o sentimento de pertencimento ao grupo.

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Além disso, eles participaram de um experimento levemente desconfortável: um manguito (aparelho similar a um medidor de pressão arterial) era inflado no braço dos voluntários até que eles relatassem um incômodo significativo.

O que chamou a atenção dos cientistas foi que, após os rituais, quando voltaram a enfrentar o aperto do manguito, os voluntários conseguiram tolerá-lo por mais tempo.

Segundo os pesquisadores, isso indica não que a oração funciona como um analgésico, mas que a experiência coletiva altera a capacidade mental de suportar o estímulo doloroso.

“A pessoa aguenta mais, porque o organismo está mais relaxado, graças à liberação da beta-endorfina”, explica Maraldi. “Mas, o que vai mediar isso é o vínculo social; o fato delas se sentirem mais amparadas.”

Aliás, os pesquisadores viram que a sensação de vínculo social entre os religiosos subiu 5,4% após as celebrações, enquanto o afeto positivo — índice que mede emoções como bem-estar e entusiasmo — saltou 13,1%.

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“E isso aconteceu tanto no Brasil quanto no Reino Unido”, enfatiza o autor brasileiro.

Explicação pode ser pré-histórica

No livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade (Companhia das Letras – Clique para comprar),o historiador Yuval Noah Harari defende que a capacidade de acreditar em coisas que não existem fisicamente, como deuses, estados ou sistemas econômicos, seria o segredo do “domínio” dos humanos no planeta Terra.

Enquanto macacos só conseguem se organizar em grupos de até algumas centenas de indivíduos, os homo sapiens viveriam em repúblicas com milhares de pessoas (ou quase todas elas) seguindo as mesmas leis, graças, talvez, às suas crenças.

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Mas tem um outro ponto que pode explicar como as espécies alcançam a coesão, como defende o antropólogo da Universidade de Oxford Robin Dunbar, que também colaborou com o novo estudo.

Para entender sua teoria, imagine um bando de chimpanzés no meio da floresta. Se você olhá-los com atenção, vai notar um hábito curioso: eles passam horas e horas catando piolhos e limpando o pelo uns dos outros. Para a primatologia, essa “catação” (ou grooming, em inglês) é, além de um hábito de higiene, a liga que os une.

O motivo é que o toque físico estimula receptores na pele que disparam a produção de beta-endorfirna e outros opioides cerebrais que favorecem a sensação de relaxamento, confiança e pertencimento.

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O problema é que catar piolho é um trabalho que funciona muito bem para grupos pequenos. Mas, à medida que os ancestrais humanos passaram a viver em comunidades de centenas de pessoas, certamente faltou braço fazer grooming em tanta gente.

A resposta da evolução, acredita Dunbar, foi escalar essa reação neuroquímica. Para isso, em vez do toque individual, passamos a usar rituais coletivos, como cantar, dançar e comer juntos ou mesmo compartilhar objetivos.

Para os defensores da corrente, os rituais em grupo podem estimular os mesmos sistemas químicos do cérebro envolvidos no cuidado individual — como catar piolhos —, mas de uma maneira mais “eficiente”.

“A teoria defendida por Dunbar é a de que os processos religiosos também ajudam a criar coesão social“, explica Maraldi. Como consequência, viria, também, a sensação de bem-estar, acolhimento e relaxamento.

+Leia também: Entre a fé e a ciência: como a espiritualidade influencia a saúde

Um tipo de terapia

É importante lembrar que o estudo não provou que a religião libera beta-endorfinas, já que não houve uma análise da presença dessa substância no organismo dos participantes.

Os pesquisadores usaram apenas o autorrelato dos participantes sobre sua tolerância à dor, ou seja, um indicador indireto que poderia ser compatível com esse mecanismo.

Ainda assim, Maraldi defende que, quando as pessoas se sentem integradas, há uma repercussão no organismo.

“Por isso, uma das ideias defendidas é a de que as pessoas não buscam religião apenas porque acreditam. Mas também porque tem um efeito terapêutico“, conclui o pesquisador.

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