O caminho para a adesão dos 50% mais 1 dos credores não será fácil. Especialista em recuperação empresarial e sócio da RGF-BIZDOC, Claudio Damasceno diz que os bancos brasileiros tendem a ser o bloco colaborativo, enquanto alguns fundos já cobram publicamente até US$ 4 bilhões com participação da Petrobras, garantias e conversão de dívida em ações. Para vencer essa resistência, ele sugere dar aos fundos alguma fatia de participação futura na empresa e usar a ameaça de recuperação judicial como pressão. “Sem um sinal concreto de capitalização dos controladores, o risco de não atingir a maioria em 90 dias e ter de recorrer à recuperação judicial é real”, diz.
A dúvida é se a Petrobras vai injetar dinheiro novo ou oferecer ações. Petrobras e IG4 tratam um aporte apenas como última opção, enquanto a emissão de novas ações tende a ser o caminho, diz Júlio Moretti, CEO da NEOT, especializada em gestão de recuperações judiciais e falências. Já Cláudio Santos, sócio da consultoria Galeazzi, lembra que o patrimônio líquido negativo em R$ 13 bilhões da Braskem torna uma emissão de ações pouco atrativa. “Dinheiro do acionista é o que eles vêm pedindo desde o começo, e é o que muda o tom da conversa, porque enquanto o acionista não coloca nada, qualquer proposta é lida como transferência de valor em mão única”, afirma.
Também preocupa o aporte de US$ 476 milhões prometido à subsidiária mexicana Braskem Idesa, que está em recuperação nos EUA. Eric Gil, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais), lembra que o segmento mexicano não tem como se sustentar sozinho, obrigando que a origem do dinheiro seja o já apertado caixa da matriz no Brasil. “Cada dólar mandado ao México é um dólar a menos disponível para os credores no Brasil”, diz.
A promessa da Braskem de continuar pagando fornecedores também é vista com cautela. No segundo trimestre, a empresa repassou R$ 1,6 bilhão a mais aos fornecedores do que recebeu deles em novas compras a prazo. “A garantia mais concreta que a empresa pode apontar é a geração operacional de caixa, mas essa geração é volátil e depende de spreads [diferença de preço entre o produto final da Braskem e a matéria-prima utilizada] que hoje seguem sustentados pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã, mas que podem reverter rapidamente se houver um cessar-fogo”, diz Gil, que foi membro do Observatório Social Petrobras.
Os especialistas convergem num ponto: a proteção judicial não resolve. O desfecho dos 90 dias depende do mesmo fator que travou as negociações informais: quanto e de que forma os acionistas controladores estarão dispostos a colocar na mesa.

