Tarifas de Trump forçam empresas canadenses a se mudar – 13/08/2026 – Economia

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Tarifas de Trump forçam empresas canadenses a se mudar – 13/08/2026 – Economia

Na empresa Northern Cables, as máquinas que produzem cabos revestidos de aço funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. O ritmo acelerado, no entanto, não é motivado por uma enxurrada de novos pedidos, e sim pelo medo.

A empresa canadense corre para abastecer armazéns nos Estados Unidos. Ela é uma das muitas fabricantes canadenses de produtos destinados a clientes americanos que agora enfrentam pressão para transferir suas fábricas para o país vizinho, a fim de evitar as tarifas de 50% do presidente Donald Trump, previstas para entrar em vigor na próxima semana.

A mais recente ofensiva tarifária de Trump atinge a Northern Cables de forma particularmente direta. Parte de sua fábrica está instalada em uma antiga engarrafadora da Coca-Cola, cerca de 4 quilômetros ao norte da linha invisível que separa Ontário do estado de Nova York.

Como metade de seus negócios vem dos EUA, a empresa agora considera se mudar. Seria uma reviravolta marcante para a Northern Cables, fundada em 1996 para manter a fabricação de cabos em Brockville, na província de Ontário, depois que uma empresa americana fechou sua fábrica na cidade e transferiu a produção para fora do Canadá.

Se as tarifas de Trump sobre uma ampla gama de produtos, incluindo cabos elétricos, entrarem em vigor em 19 de agosto, como está previsto, Shelley Bacon, CEO da empresa, disse que ele e o presidente da empresa, Todd Stafford, começarão a procurar uma fábrica nos EUA.

“Todd e eu vamos ter de ir até lá procurar um lugar”, disse Bacon, sentado à mesa de uma sala de reuniões, onde pequenos trechos de cabos fabricados na unidade estavam expostos sob um tampo de vidro. “Há empregos demais em jogo aqui para simplesmente não fazermos nada.”

A Northern Cables normalmente divide a produção de seus cabos elétricos blindados —que fornecem energia para tudo, de edifícios comerciais a minas subterrâneas— igualmente entre clientes canadenses e americanos.

Mas, para abastecer seus armazéns nos EUA, cerca de 80% dos cabos estão sendo fabricados conforme as normas elétricas americanas. Stafford estima que os armazéns americanos ficarão vazios dentro de duas a três semanas.

A Northern Cables, que tem 320 funcionários, não está sozinha. Uma pesquisa com 275 fabricantes, realizada pelo instituto Angus Reid para a KPMG, constatou que 29% haviam transferido parte ou toda a produção para os EUA desde que Trump iniciou sua guerra comercial com o Canadá.

Outros 13% consideravam fazer o mesmo. A pesquisa foi realizada em maio, antes de Trump anunciar suas mais recentes tarifas de 50%.

“Se a incerteza comercial e tarifária continuar e se o governo não se concentrar em alguns dos problemas estruturais que afetam a indústria no Canadá, esses fabricantes talvez não tenham alternativa a não ser começar a se transferir para os EUA”, disse Anamika Gadia, líder nacional de mercados industriais da KPMG no Canadá. “Não é necessariamente o que desejam. Mas podem acabar com poucas opções.”

Em Ottawa, a Ambico fabrica portas altamente especializadas —resistentes a balas e explosões, à prova de som, de fogo e de espionagem— encontradas em edifícios como o Pentágono e o Eisenhower Executive Office Building, no complexo da Casa Branca.

Jack Shinder, CEO da empresa, antes não fazia ideia de onde era produzido o aço que chegava à sua fábrica. Ele simplesmente vinha de uma processadora em Montreal, já laminado e cortado de forma rudimentar.

Mas, depois que os EUA impuseram uma tarifa de 25% sobre produtos fabricados majoritariamente com aço ou alumínio, Shinder tratou de garantir que o fornecedor enviasse apenas aço produzido no território americano, a fim de reduzir o impacto da tarifa. A medida diminuiu a alíquota efetiva sobre as portas da empresa para cerca de 10%. Cada porta custa de US$ 5.000 (R$ 25,9 mil) a US$ 20 mil (R$ 103,9 mil).

“Então, por enquanto, não vou ficar vulnerável. O problema é o que acontece se o governo mudar de ideia amanhã à tarde, no mês que vem ou daqui a três meses. Ninguém sabe”, afirmou Schinder.

A Ambico, fundada pelo pai e pelo tio de Shinder em 1955, inicialmente vendia apenas portas e batentes metálicos nos arredores de Ottawa, antes de se expandir para Montreal e Toronto.

Depois que Shinder voltou da universidade e dos estudos de teologia nos EUA em 1980, ele defendeu a expansão para o norte do estado de Nova York. Na época, era uma ideia pouco convencional para um pequeno fabricante canadense de fora do setor automobilístico, anos antes de Canadá e EUA assinarem seu primeiro acordo de livre-comércio, em 1989.

Cerca de dois terços dos negócios da Ambico agora vêm dos EUA. Ainda assim, Shinder disse que não transferirá a empresa. “As 120 pessoas que emprego aqui sabem que não farei isso”, afirmou. “A verdadeira questão é como vou sustentar meu negócio.”

Alguns anos atrás, a Ambico estudou abrir uma segunda fábrica no norte do estado de Nova York, mas abandonou a ideia após concluir que não conseguiria encontrar trabalhadores o suficiente.

Em vez disso, Shinder planeja licenciar parte da tecnologia da empresa para fabricantes americanos e expandir-se para a Europa, onde a Ambico agora busca certificar suas portas segundo as normas europeias. Ele espera que esse mercado substitua apenas cerca de 15% dos negócios da empresa.

Ele disse esperar que a empresa possa ter prejuízo por um ou dois anos devido às tarifas. “Acho que conseguiremos enfrentar as tempestades. Acho mesmo, mas talvez eu esteja sendo ingênuo”, acrescentou.

A Northern Cables também está de olho na Europa, embora o caminho seja mais difícil. As normas elétricas europeias não permitem o uso de cabos blindados como fiação industrial. Por isso, os cabos precisam ser passados por tubos de aço. Stafford disse que a empresa busca aprovação para mudar essa regra, mas estima que o processo possa levar 15 anos.

Trump não é a única dor de cabeça comercial da Northern Cables. Bacon disse que, depois que os EUA impuseram tarifas elevadas sobre cabos elétricos da China, esses produtos começaram a entrar no Canadá.

A China exportou cerca de 538 milhões de dólares canadenses (R$ 2 bi) em fios e cabos para o Canadá em 2024, ante 327 milhões de dólares canadenses (R$ 1,2 bi) em 2015. Em 2024, o Canadá importou 872 milhões de dólares canadenses (R$ 3 bi) em cabos dos EUA e enviou a clientes americanos cabos no valor de 704 milhões de dólares canadenses (R$ 2,6 bi).

“Estamos sendo esmagados no Canadá pelas importações chinesas”, disse Bacon, acrescentando que está frustrado com o que considera desinteresse do governo canadense na situação, embora o Canadá tenha imposto recentemente tarifas sobre alguns cabos menores vindos da China, um produto de pouca importância no portfólio da Northern Cables.

Assim como Shinder, Stafford disse estar preocupado em encontrar trabalhadores suficientes para uma fábrica nos EUA, que sequer ficaria totalmente livre das tarifas. As empresas canadenses ainda precisariam importar grandes quantidades de alumínio, porque os EUA têm capacidade limitada para produzir o metal. Atualmente, esse alumínio está sujeito a uma tarifa de 50%.