Úrsula é um romance da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis. O livro é uma obra do Romantismo brasileiro. De caráter regionalista, apresenta um amor trágico, uma heroína idealizada e exagero sentimental. A narrativa, publicada em 1859, também possui discurso abolicionista.
O livro conta a história de amor entre os jovens Tancredo e Úrsula. O grande vilão da história é o comendador Fernando. Apaixonado pela bela sobrinha, ele não permite que o par romântico tenha um final feliz. Assim, essa história trágica termina com a morte dos heróis e a tentativa de redenção do vilão.
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Resumo sobre Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
- Úrsula é um romance regionalista da escritora maranhense Maria Firmina do Reis.
- O livro é uma obra do Romantismo brasileiro, marcada por sentimentalismo e pela idealização do amor e da mulher.
- A jovem Úrsula vive no meio rural e cuida de sua mãe paralítica, Luísa B.
- O pai de Úrsula foi assassinado pelo irmão de Luísa B., que era contra o casamento.
- O irmão de Luísa B. é o comendador Fernando, um homem cruel e vingativo.
- O jovem Tancredo tem um acidente com o cavalo, fica ferido e inconsciente.
- Ele é salvo pelo jovem escravizado Túlio, que leva o desconhecido para a casa de Úrsula.
- Túlio e Úrsula cuidam do hóspede que, ao acordar, apaixona-se por Úrsula, além de comprar a alforria de Túlio.
- Tancredo era apaixonado por Adelaide, que o traiu para se casar com o pai de Tancredo.
- Curado da antiga paixão, ele declara seu amor por Úrsula antes de se despedir, com a promessa de voltar em poucos dias.
- O comendador encontra Úrsula e logo se apaixona por ela, decide casar-se com a sobrinha a qualquer custo.
- Após a morte de Luísa B., Tancredo leva Úrsula para um convento, onde se casa com ela.
- Como vingança, o comendador mata Túlio e Tancredo, o que leva Úrsula à loucura e à morte.
- Corroído por remorsos, o comendador tenta se redimir ao se tornar o frei Luís de Santa Úrsula.
Videoaula sobre Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
” frameborder=”0″ allow=”accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope;” allowfullscreen=”true” title=”YouTube video player”>Análise da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

→ Personagens da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
- Adelaide: paixão anterior de Tancredo.
- Antero: velho escravizado.
- Comendador Fernando P.: irmão de Luísa B.
- Feitor branco: a serviço do comendador.
- Luísa B: mãe de Úrsula.
- Mãe de Tancredo.
- Mãe Susana: velha escravizada.
- Padre.
- Pai de Tancredo.
- Paulo B.: falecido marido de Luísa B.
- Tancredo: protagonista.
- Túlio: jovem escravizado.
- Úrsula: protagonista.
→ Tempo da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
O romance apresenta tempo cronológico, pois a narrativa é linear. Já a época em que transcorre a ação não é especificada. Supõe-se que seja a primeira metade do século XIX.
→ Espaço da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
O narrador não menciona o nome da cidade onde a ação transcorre. No entanto, sabemos que fica no interior. A única pista está neste trecho: “um jovem cavaleiro melancólico, e como que exausto de vontade, atravessando porção de um majestoso campo, que se dilata nas planuras de uma das nossas melhores e mais ricas províncias do Norte […]”. Além disso, também sabemos que o protagonista Tancredo estudou Direito em São Paulo.
→ Narrador da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
O romance Úrsula apresenta narrador onisciente, ou seja, narrador em terceira pessoa, com acesso ao mundo interior dos personagens. Um narrador que conhece todos os detalhes da história e, inclusive, posiciona-se, tece opiniões acerca da realidade.
→ Enredo da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
Um rapaz pensativo está montado em um cavalo: “De repente o cavalo, baldo de vigor, em uma das cavidades onde o terreno se acidentava mais, mal podendo conter-se pelo langor dos seus lassos membros, distendeu as pernas, dilatou o pescoço, e dando uma volta sobre si, caiu redondamente”.
O cavaleiro, com a queda, fica ferido e desmaia. Mais tarde, outro rapaz (um homem escravizado) aparece para salvá-lo:
Reunindo todas as suas forças, o jovem escravo arrancou de sob o pé ulcerado do desconhecido o cavalo morto, e deixando-o por um momento, correu à fonte para onde uma hora antes se dirigia, encheu o cântaro, e com extrema velocidade voltou para junto do enfermo, que com desvelado interesse procurou reanimar. Banhou-lhe a fronte com água fresca, depois de ter com piedosa bondade colocado-lhe a cabeça sobre seus joelhos. Só Deus testemunhava aquela cena tocante e admirável, tão cheia de unção e de caridoso desvelo! E ele continuava a sua obra de piedade, esperando ansioso a ressurreição do desconhecido, que tanto o interessava.
Esse rapaz se chama Túlio, e leva o ferido para a casa de Luísa B. Ali Túlio cuida do misterioso desconhecido, que delira. O hóspede também é cuidado por Úrsula, filha de Luísa B. Além disso, a moça cuida da mãe enferma. Após muitos dias, o hóspede, restabelecido, em agradecimento, paga a alforria de Túlio, que está disposto a acompanhar seu benfeitor. Já Úrsula fica triste com a partida do hóspede. Os dois estão apaixonados. O rapaz (seu nome é Tancredo) declara seu amor e descobre que é correspondido.
Tancredo lhe conta que, um dia, amou uma mulher, uma jovem chamada Adelaide. Como Adelaide era pobre e órfã, o severo pai do rapaz não consentiu no casamento. Os dois apaixonados então sofreram muito. Tancredo tentou convencer o pai a aceitar o casamento. O pai respondeu: “— Sabes tu quem era o pai dessa menina? Não te falarei, — continuou — de seus cofres vazios de ouro pelo seu péssimo proceder; mas, Tancredo, sobre o nome desse homem pesa uma…”.
Isso não importava a Tancredo, de forma que o pai consentiu finalmente, mas com uma condição: o rapaz precisava esperar um ano antes de se unir a Adelaide. Enquanto isso, Tancredo devia trabalhar em outra cidade e ficar longe da amada. Ao voltar para casa, teve uma péssima surpresa: a mãe de Tancredo tinha morrido e, agora, Adelaide era esposa do pai do rapaz, ou seja, sua madrasta.
Após contar sua história, Tancredo ouve da enferma Luísa B. outra história. Luísa tem um irmão que a odeia. Isso porque ele era contra o casamento entre Luísa e Paulo, o qual era considerado socialmente inferior pelo irmão de Luísa. Tancredo fica sabendo que Paulo B. foi assassinado, mas a esposa não sabia quem era o assassino.
Em seguida, o narrador mostra Túlio, que se despede de uma velha escravizada, a mãe Susana. Ela fica feliz ao saber que Túlio está livre e decide contar-lhe a história do próprio cativeiro: foi capturada na África e trazida para o Brasil:
Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos!
A princípio, tornou-se posse do cruel comendador P. Revela que o marido de Luísa B. também era um homem mau: “Pouco depois casou-se a senhora Luísa B., e ainda a mesma sorte: seu marido era um homem mau, e eu suportei em silêncio o peso do seu rigor”. Por fim, Tancredo despede-se de Úrsula e promete voltar: “estarei convosco daqui a meio mês”.
Após despedir-se do amado, Úrsula encontra o tio (mas sem saber quem ele é). Ele se apaixona por ela. Porém, é um homem violento e possessivo:
— Úrsula, — continuou — oh! Pelo céu, acreditai-me. Amo-vos. Apenas há um momento que vos conheço e parece que há um século que vos idolatro. É ardente e violento o afeto que nutro no peito. Menos puro fora ele, que, imenso como acabo de confessá-lo, saciá-lo-ia sem dificuldade. Meus escravos não estarão longe, muitos deles seguiram-me à caça: chamá-lo-ia, e vós seríeis conduzida em seus braços, apesar dos vossos gritos, e do vosso desespero, até minha casa, onde seríeis minha, sem terdes o nome de esposa.
Ela se afasta dele, e ficamos sabendo, pelo próprio homem, em conversa consigo mesmo, que ele assassinou o pai de Úrsula:
— Mulher! Anjo ou demônio! Tu, a filha de minha irmã! Úrsula, para que te vi eu? Mulher, para que te amei?!… Muito ódio tive ao homem que foi teu pai: ele caiu às minhas mãos, e o meu ódio não ficou satisfeito. Odiei-lhe as cinzas; sim odiei-as até hoje; mas triunfaste do meu coração; confesso-me vencido, amo-te! Humilhei-me ante uma criança, que desdenhou-me e parece detestar-me! Hás de amar-me.
O tio de Úrsula manda uma carta para Luísa B. O comendador Fernando vai até a irmã com a desculpa de reconciliação. Porém, seu afeto é sincero: “Fernando combatia há dezoito anos o poder desse amor fraterno, e seu orgulho conseguiu, por algum tempo, o que o coração repugnava, o que a razão e a inteligência condenavam, e o que ele sentia dolorosamente; porque só nesse afeto lhe estava a ventura de toda a sua vida”.
Depois que o irmão se vai, a paralítica Luísa B. está próxima da morte. Ela conta para Úrsula que Fernando confessou ter matado Paulo B.: “— E diz que loucamente te adora, e quer compensar-te com o seu nome, e com a sua fortuna dos males que nos há feito!…”. E suas últimas palavras são: “Foge… minha …fi…lha!.. fo…ge!…”.
Tancredo e Túlio voltam, mãe Susana conta-lhes que Luísa B. morreu, que Úrsula está agora no cemitério e sofre a perseguição do tio. Úrsula implora para que Tancredo fuja com ela. O casal vai para outra cidade, onde Úrsula abriga-se em um convento. Com a fuga de Úrsula, o ódio do comendador é imenso:
Tancredo! Infame!… Seus nomes enlaçados no tronco do jatobá, em que a vi a vez primeira, traiu-me o estado do seu coração. Ela o ama, já o sabia; mas o seu amor não poderá resistir ao meu ódio. Juro, mulher, que hás de ser minha esposa, ou o inferno nos receberá a ambos!
O comendador manda que busquem mãe Susana: “— Que me tragam sem detença Susana. Ouvis, senhor? Que a tragam de rastos. Que a atem à cauda de um fogoso cavalo, e que o fustiguem sem piedade, e…”. Mas o feitor está cansado das atrocidades do patrão e diz para Susana fugir. Porém, ela se nega, pois “os que estão inocentes não fogem”.
Fernando quer saber onde está Úrsula. Mas Susana diz não saber. Depois o vilão captura Túlio, quer saber onde está Tancredo, mas o rapaz não revela seu paradeiro. Túlio consegue fugir. Encontra um sacerdote, que lhe revela ter feito um casamento em um convento, ou seja, o casamento de Tancredo e Úrsula. Antes de encontrar o casal e avisar-lhe sobre o comendador, Túlio é emboscado, recebe dois tiros e morre. Tancredo e Úrsula também são acurralados pelo comendador Fernando. Tancredo é assassinado.
Por fim, Fernando é tomado pelo remorso:
No rosto pálido e desfeito, as lágrimas escavavam-lhe profundos sulcos; os olhos encovados, vermelhos, e pisados denunciavam a insônia febricitante. Já não era o mesmo, senão no seu amor e na sua desesperação.
A dor enrugou-lhe as faces, os remorsos alvejaram-lhe os cabelos. Tão poucos dias de aflição transformaram-no em um velho fraco e abatido.
Faltavam-lhe forças para ver Úrsula; as noites, e os dias inteiros passava-os aí, ora correndo louco por baixo dessas copadas e seculares árvores; ora rojando-se por terra, arrancando os cabelos e blasfemando horrivelmente de Deus e dos homens.
Mãe Susana também morre, mais um motivo para os tormentos da consciência do vilão, que é repreendido pelo padre: “Assassino de Tancredo, de Túlio, de Paulo, e de Susana! Monstro! Flagelo da humanidade, ainda não saciastes a vossa vingança? Ah! Humilhado e em nome de Deus, pedi-vos mercê para os infelizes, salvação para a vossa alma. Desdenhastes as minhas súplicas!”.
Para aumentar a tragédia, a heroína Úrsula fica louca: “A infeliz enlouqueceu de dor”. E acaba morrendo: “E ela, nesse transe supremo, cruzou as mãos sobre o peito, apertando nesse estreito abraço a florzinha seca de sua capela, murmurou — Tancredo! — E com os lábios entreabertos, e onde adejava um sorriso divinal, e como um anjo deu o último suspiro”. Dois anos depois, o comendador Fernando possui uma nova identidade:
Esse homem era um velho, com a fronte e o rosto sulcados de rugas, a pele macilenta, e o corpo vergado e encarquilhado como do convalescente de moléstia atroz, debilitante e prolongada.
Quem era ele ninguém o sabia no convento. Chamava-se frei Luís de Santa Úrsula.
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Características da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
→ Estrutura da obra Úrsula
Além de um prólogo e um epílogo, o romance Úrsula apresenta os seguintes capítulos:
- I: Duas almas generosas;
- II: O delírio;
- III: A declaração de amor;
- IV: A primeira impressão;
- V: A entrevista;
- VI: A despedida;
- VII: Adelaide;
- VIII: Luísa B.;
- IX: A preta Susana;
- X: A mata;
- XI: O derradeiro adeus!;
- XII: Foge!;
- XIII: O cemitério de Santa Cruz;
- XIV: O regresso;
- XV: O convento de***;
- XVI: O comendador Fernando P.;
- XVII: Túlio;
- XVIII: A dedicação;
- XIX: O despertar;
- XX: A louca.
→ Estilo literário da obra Úrsula
A obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, faz parte do Romantismo brasileiro, estilo de época que durou de 1836 a 1881. O romance foi publicado, pela primeira vez, em 1859, e possui caráter regionalista, já que é ambientado no meio rural brasileiro. A obra é marcada pelo sentimentalismo, além de apresentar idealização da mulher e do amor.
Assim, a protagonista é retratada como perfeita, com beleza física e moral. O amor é enaltecido como um sentimento nobre, superior. Além dos heróis (o casal romântico), a obra também conta com vilões, sendo o maior deles o tio da heroína Úrsula. No mais, a narrativa possui caráter abolicionista.
Contexto histórico da obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
O romance está inserido no contexto do Segundo Reinado, em que o Brasil foi governado pelo imperador D. Pedro II, entre 1840 e 1889. Durante esse período, houve um fortalecimento da luta abolicionista. Assim, em 1850, foi aprovada a Lei Eusébio de Queirós, a qual tornava crime o tráfico de pessoas escravizadas.
Dessa forma, a obra de Maria Firmina dos Reis também contribuiu para o combate à escravidão no Brasil. Até a Abolição da Escravatura, em 1888, outras leis buscaram combater a escravidão: a Lei do Ventre Livre, de 1871, tornava livres todas as crianças nascidas de mãe escravizada a partir dessa data. Já a Lei dos Sexagenários, de 1885, libertava pessoas escravizadas com 60 anos de idade ou mais.
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Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula
A escritora Maria Firmina dos Reis nasceu na cidade de São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1822. Era filha de uma mulher alforriada com um dono de terras. Maria Firmina, portanto, é a primeira escritora negra reconhecida na literatura brasileira. Além disso, também foi professora primária.
Em 1880, atuou como professora em uma das primeiras aulas mistas. Até então, meninos e meninas não podiam estudar juntos. A autora faleceu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães, sem deixar nenhuma fotografia. Caída no esquecimento, suas obras passaram a ser valorizadas quase um século depois.
Créditos da imagem
Editora PUC Minas (reprodução)
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
ALONSO, Angela. O abolicionismo como movimento social. Novos estudos CEBRAP, São Paulo, n. 11, nov. 2014.
LITERAFRO. Maria Firmina dos Reis. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/322-maria-firmina-dos-reis.
MEMORIAL DE MARIA FIRMINA DOS REIS. Biografia Firmina. Disponível em:
MUZART, Zahidé Lupinacci. Maria Firmina dos Reis. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (org.). Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. 2. ed. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000.
REIS, Maria Firmina dos. Úrsula e outras obras. Brasília: Edições Câmara, 2018.
