“Embora o ciclo natural dos produtos ainda exista, a combinação de inovações tecnológicas – como o cultivo em ambientes controlados e o aprimoramento genético – com a dinâmica da logística global tem alterado a nossa percepção sobre essas oscilações”, observa o economista do FGV IBRE.
Heron do Carmo, professor sênior da FEA-USP, entende que o menor protagonismo da sazonalidade na composição da inflação reflete principalmente uma mudança nos padrões de consumo, impulsionada pela maior disponibilidade de produtos, decorrente de um processo de abertura econômica mais amplo do que o observado no passado.
“Nesse contexto, os índices de preços ao consumidor se baseiam em amostras selecionadas. Contudo, há uma vasta gama de itens que, embora individualmente tenham peso reduzido no índice, influenciam indiretamente o consumo e os preços da cesta básica ao servirem como substitutos”, diz.
Segundo ele, no setor de alimentos essa dinâmica é ainda mais evidente. Antigamente, variações climáticas regionais impactavam severamente os preços de produtos específicos, como feijão ou batata. Hoje, a sofisticação da produção agrícola e a maior integração do mercado nacional mitigaram esse efeito.
“O avanço tecnológico permitiu a expansão de novas fronteiras agrícolas, como a fruticultura no Nordeste, que agora abastece todo o País, independentemente das condições climáticas em outras regiões. Ademais, apesar de deficiências logísticas remanescentes, houve avanços significativos na infraestrutura de transporte, reduzindo o tempo de escoamento das mercadorias. Esse cenário altera a percepção de sazonalidade”, pontua o professor.
Assim, reforça Heron, produtos antes marcados por variações sazonais acentuadas – como frutas, batatas e tomates – podem ter impacto relevante nos índices de inflação não necessariamente por seu peso na cesta, mas pela volatilidade extrema de seus preços. Por isso, diz, é importante distinguir esse efeito da dinâmica dos itens de maior peso no grupo alimentação.
