Há uma linha na prestação de contas da habitação paulista que resume todo o debate: desde 2023, o Estado emitiu 96,3 mil cartas de crédito imobiliário. Esse é o instrumento que explica a distância entre o número anunciado como entrega e o número efetivamente construído pelo governo — e, mais do que qualquer sigla, é ele que precisa ser entendido por quem vota.
Carta de crédito funciona assim, simplificadamente: o Estado viabiliza o acesso ao financiamento e o beneficiário usa o valor para adquirir a moradia, geralmente em empreendimento privado. A família entra no mercado formal com prestação compatível com sua renda — e aí está o mérito indiscutível do modelo, que a secretaria resume bem: “Sem o apoio do Estado, essas famílias teriam dificuldade ou simplesmente não conseguiriam adquirir uma moradia.” Na modalidade CCI (Carta de Crédito Individual), a renda média mensal das famílias beneficiadas fica entre dois e 2,3 salários mínimos, conforme a região — contra 4,7 salários mínimos nos financiamentos do FGTS em geral. Em outras palavras: o programa alcança quem o mercado tradicional não alcança.
Onde está o problema, então
No que se chama pelo nome. Uma coisa é Estado construtor — obra pública, contrato, canteiro, chave. Outra é Estado facilitador — crédito, mercado, financiamento, entrega em etapas. Os dois são política habitacional legítima; os dois podem ser defendidos. Mas somá-los no mesmo número de “moradias entregues” é o que cria a confusão que o levantamento do UOL expõe: das 117 mil unidades em obras, 72% são crédito imobiliário, e 84 mil não estão sendo construídas pelo governo. Dizer que se “entregou” o que se “viabilizou” é uma escolha de comunicação — e escolhas de comunicação, em ano eleitoral, viram promessa na boca de quem se reeleger.
O que isso significa para as 30 mil prometidas
Se Tarcísio vencer, a promessa é de mais 30 mil unidades, com foco em áreas de risco — encostas, mananciais, várzeas de rios e palafitas. O problema é de compatibilidade entre instrumento e objetivo. Crédito resolve demanda solvável e obra viável; remoção de área de risco exige obra pública, regularização e reassentamento — etapas que não se resolvem com carta de crédito, porque envolvem desapropriação, terra e infraestrutura. Se as 30 mil forem contadas na mesma régua dos 96,3 mil cartões, o eleitor paulista terá comprado, novamente, um número — não uma casa.
A conta final: o programa do crédito tem um resultado real e mensurável — 2 a 2,3 salários mínimos de renda chegando ao financiamento onde o FGTS não chega. Isso é entrega, e é preciso dizer. O que falta é precisão: separar quem construiu de quem viabilizou, e dizer com clareza quantas chaves, não quantas cartas, o governo de São Paulo colocou na mão dos paulistas.
