“Mimo com acar”: a sabatina de Filipe Barros esqueceu exatamente a pergunta que incomodava — e Curitiba notou

“Mimo com acar”: a sabatina de Filipe Barros esqueceu exatamente a pergunta que incomodava — e Curitiba notou

Filipe Barros (PL), candidato ao Senado pelo Paran, saiu da sabatina da RPC TV, afiliada da Globo, na quinta (3), com o placar que todo candidato sonha: foi apertado sobre os ataques antigos a Moro e a Dallagnol, sobre a condenação de Valdemar Costa Neto no mensalão, sobre os R$ 3,8 milhões que recebeu do fundo eleitoral — e respondeu tudo com a agenda preparada: unio da direita, crítica ao STF, redução da maioridade penal, fim do fundo eleitoral. Faltou uma pergunta, e em Curitiba a lacuna tem apelido: na Boca Maldita, a leitura que circulou após a entrevista foi de “mimo com acar” — ou, no dicionário dos bastidores, “uma teta”.

O assunto que não entrou na pauta tem nome e processo: o Banco Master.

O projeto que Valia R$ 1 milho por CPF — e que sumiu quando o Master explodiu

Não é pauta de fofoca: é registro oficial. Filipe Barros apresentou na Câmara o PL 4.395/2024, protocolado em 14 de novembro de 2024, para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ — quadruplicar, de graça, a proteção que o investidor recebe se o banco quebrar. A mesma ideia apareceu no Senado por iniciativa de Ciro Nogueira (PP-PI) — alcanado, depois, pela Operação Compliance Zero, o episódio em que a PF cercou justamente o esquema do Banco Master e de Daniel Vorcaro.

E então, a cronologia que a sabatina não tocou: em 3 de fevereiro de 2026, o próprio Barros retirou o projeto, alegando depois as “ilações” em torno da proposta — e dizendo ter denunciado à PF, em dezembro de 2024, negócios envolvendo o Master e a Reag Investimentos. Uma reportagem de O Globo (junho/2026) havia relacionado o projeto dele à “emenda Master” de Ciro e a requerimentos do deputado envolvendo Banco Central, CVM e interesses de Vorcaro. Tudo isso estava publicado antes da entrevista na RPC.

A pergunta que poderia ter sido feita era objetiva: por que apresentar um projeto que quadruplicava a cobertura do FGC — e por que retirá-lo depois? Ou, mais direto ainda: houve contato de representantes do Banco Master, de Vorcaro ou de pessoas ligadas ao banco sobre a proposta? Nada disso foi perguntado. Filipe, portanto, não precisou responder.

A lacuna que se destaca porque a bancada apertou em todo o resto

O detalhe que transforma a omissão em história editorial: a bancada da RPC — Roberson Jannuzzi, Ana Carolina Oleksy e Marcelo Rocha — não poupou ninguém nas sabatinas anteriores: cobrou Deltan Dallagnol, Gleisi Hoffmann e Alexandre Curi. Com Barros, foi dura no resto — Jannuzzi reviveu o “sem caráter” que o candidato já disse de Moro; Ana trouxe os ataques antigos a Dallagnol; Marcelo perguntou se o eleitor não desconfiaria das viradas de posição; Jannuzzi lembrou a condenação de Valdemar e perguntou como se combate corrupção sob comando condenado. Filipe defendeu Valdemar (“pagou por seus erros”), abençoou a paz com Moro e Dallagnol (“existe um projeto maior”), e seguiu impecável.

Só que, quando o roteiro podia esbarrar no assunto mais quente do ciclo eleitoral — dinheiro público, bancos e o caso Master —, a entrevista fez curva. O contraste ficou registrado: dinheiro público de campanha entrou na pauta; dinheiro público do FGC, em plena crise do Master, ficou fora.

O que se pode dizer — e o que não se pode

Justiça ao registro, na linha do próprio Blog do Esmael: Filipe Barros não é investigado. Não há confirmação de que a PF o tenha colocado na mira da operação, e transformar autoria de projeto em crime seria inferência sem prova. O que existe é mais simples e mais incômodo — e completamente documentado: ele apresentou a mesma ideia do projeto associado a Ciro Nogueira; Ciro foi alcançado pela investigação do Master; e Filipe retirou a proposta em fevereiro de 2026. Um conjunto assim, para um candidato que construiu a identidade eleitoral em cima da bandeira anticorrupção e prometeu na própria sabatina uma “nova República do Paran” ao lado de Moro e Deltan, merecia no mínimo uma pergunta. O eleitor ficou sem ouvir a resposta — e sem ouvir a pergunta.

A conta final

Sabatina boa para candidato é a que termina com o candidato reclamando. A de Barros terminou com Curitiba reclamando da sabatina. O deputado que quer ir ao Senado pregando o combate à corrupção teve a única pergunta desconfortável da sua trajetória recente economizada pela bancada — e agora carrega para o resto da campanha a pergunta que a TV não fez: o que o PL 4.395/2024 fazia no mesmo roteiro da “emenda Master”? A RPC não perguntou. A Boca Maldita, sim. E a campanha ao Senado está apenas começando.