O voto no STF e o irmo na agncia: Mendonça julga servios funerrios de SP enquanto a famlia ascende na repartio que regula o setor

O voto no STF e o irmo na agncia: Mendonça julga servios funerrios de SP enquanto a famlia ascende na repartio que regula o setor

Enquanto o ministro André Mendonça coleciona aplausos da direita como o “homens de f” que est investigando os escndalos do Banco Master, uma reportagem de Paulo Motoryn e Cleber Lourenço, do ICL Notícias, acende uma luz amarela na biografia: o irmo dele, Alexandre de Almeida Mendonça, foi promovido em junho deste ano a secretrio-executivo da SP Regula — a agncia da Prefeitura de So Paulo que regula, entre outras reas, os servios funerrios da capital. A nomeao foi formalizada por portaria assinada pelo prprio prefeito Ricardo Nunes (MDB). E a promoo aconteceu depois de Mendonça votar no STF, em ao sobre exatamente esse setor, a favor da gesto Nunes.

A cronologia lida como roteiro de espionagem de gabinete:

  • Fevereiro de 2024 — Alexandre entra na SP Regula como gerente.
  • Julho de 2024 — vira superintendente.
  • Maro de 2025 — Mendonça pede vista e interrompe, no STF, o julgamento da ao que questionava o modelo de concesso dos cemitrios de So Paulo.
  • Abril de 2025 — Mendonça abre divergncia contra o relator Flvio Dino e vota para derrubar as medidas impostas Prefeitura e s concessionrias sobre o aumento dos preos funerrios ps-privatizao.
  • Junho de 2026 — Alexandre chega ao posto de secretrio-executivo, uma das posies mais relevantes da agncia, diretamente vinculada ao Gabinete do Prefeito.

O ministro analisou um processo sobre o mesmo setor que a agncia onde o irmo trabalhava regula — e nunca, segundo o ICL, informou no processo a existncia do parentesco nem avaliou o prprio impedimento. O ICL procurou Mendonça e Alexandre para perguntar exatamente isso. O espao segue aberto, e a resposta, at agora, segue ausente.

A divergncia que valia cargo

No mrito, a votao de Mendonça no poderia ser mais til Prefeitura: se seu entendimento prevalecesse, a gesto Nunes e as concessionrias ficariam livres das obrigaes determinadas por Dino no processo. O julgamento, por sorte da simetria, ainda no terminou — depois da divergncia de Mendonça, veio destaque de Gilmar Mendes e pedido de vista de Fux. Mas o recado do voto j foi dado, no mesmo tema, na mesma direo, enquanto o sobrenome Mendona subia na organela que fiscaliza o tema.

O prefeito, diga-se, no esconde a gratido: no ltimo domingo (7), durante os atos do 7 de Setembro em So Paulo, Nunes distribuiu camisetas “#ForaMendona” e “O povo brasileiro de bem est com Andr Mendona” — num ato convocado justamente contra o Supremo. Quando o prefeito vira f de ministro, o servidor irmo promove-se depressa.

O outro lado: “no foi promoo, foi mudana de funo”

A Prefeitura rebateu com nota dura, chamando a reportagem de “irresponsvel e sem fundamento”. Os pontos da defesa:

  1. No houve promoo: teria sido apenas “mudana de funo” de Superintendente de Planejamento para “Superintendente da Secretaria Executiva”, com “o mesmo nvel hierrquico” e “sem aumento de remunerao”. Curiosa defesa para quem chama de “simples mudana de atribuies” um posto que o Dirio Oficial e os registros da prpria agncia tratam como Secretaria Executiva — a estrutura que rene as reas operacionais, inclusive a Gerncia de Servios Funerrios e Cemiteriais.
  2. A cronologia no colhe: a movimentao de junho de 2026 teria sido mais de um ano depois do voto de abril de 2025. Verdade — mas o irmo j estava na agncia desde 2024, quando o processo tramitava, e a ascenso contnua (gerente → superintendente → secretrio-executivo) aconteceu toda dentro do perodo do julgamento.
  3. Alexandre ingressou por seleo em 2024 e “nunca teve responsabilidade direta pela gesto dos contratos de concesso”.

Fica a pergunta que a nota no respondeu: se a mudana no mudava nada, por que o irmo do ministro do STF precisava dela? E por que o ministro nunca declarou no processo que a famlia morava em cargo comissionado na repartio interessada?

O ministro que no v conflito de interesse nem no espelho

O episdio seria apenas mais um no escndalo do caso Master — Mendonça, o mesmo que Caiado chamou de “esperana” e que depois foi revelado ter se encontrado secretamente com Vorcaro em maro de 2025 — no fosse pela dimenso institucional: um ministro do STF julgando causa em que a Prefeitura parte, com irmo em cargo comissionado na agncia municipal regulada pelo tema, sem declarar impedimento nem suspeio. o tipo de situao que a prpria Corte mandaria apurar se acontecesse em qualquer tribunal do pas.

Enquanto isso, a chapa “homem de f” segue blindada: no julgamento dos funerrios, no encontro com o banqueiro, nas camisetas do prefeito. A f, aparentemente, move montanhas — e carreiras.

A conta final

No h prova, ainda, de troca direta: a Prefeitura nega, o processo no terminou, e a delao dos fatos est por vir. Mas o que a reportagem do ICL documenta suficiente para o desconforto institucional mnimo: um ministro julgou uma causa ligada ao setor em que o prprio irmo fazia carreira na repartio reguladora, e no declarou nada. No STF que Mendonça quer transformar em tribunal da moralidade pblica, isso tem nome. E o nome no “esperana” — suspeio.