A Justiça apaga o vídeo de Derrite em 24 horas: o delegado que prendia agora obedece a prazos

A Justiça apaga o vídeo de Derrite em 24 horas: o delegado que prendia agora obedece a prazos

Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de Tarcísio de Freitas e hoje candidato ao Senado por São Paulo, construiu a carreira vendendo a ordem: quem descumpre a lei, paga. Nesta semana, a lei cobrou dele — e no prazo que ele tanto gosta de exigir dos outros: 24 horas. A Justiça Eleitoral determinou a remoção imediata de um vídeo de campanha com informação falsa sobre Fernando Haddad, com multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento, limitada a 30 dias. O material, registre-se, já saiu do ar. O delegado que transformou prisão em espetáculo descobriu que, do outro lado da autoridade, existe alguém com caneta e prazo.

O que dizia a decisão

A representação foi movida pela coligação “Desperta São Paulo” — PDT, PSB, Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV) e Federação PSOL Rede —, que apontou o essencial: o vídeo apresentava “uma imputação falsa como se fosse fato objetivo”, extrapolando os limites da crítica política e do debate eleitoral.

O juiz auxiliar de propaganda, Ronnie Herbert Barros Soares, não precisou de floreios: constatou “indícios de dissociação entre o que foi divulgado no vídeo e os documentos públicos” usados para verificar a informação. Tradução sem juridiquês: Derrite falou algo que os documentos oficiais não confirmavam — e usou papel de Estado para fingir que confirmavam. Derrite ainda pode apresentar defesa; o vídeo, esse, não pode voltar.

O método: a mentira vestida de documento

O episódio revela o ofício da casa. Não foi um palavrão de palanque nem um exagero retórico — foi fabricar uma acusação contra um adversário e apresentá-la como fato objetivo, com a estética de quem acostumou o eleitorado a acreditar que “delegado não mente”. A campanha apostou no atalho que funciona até o dia em que a propaganda eleitoral encontra vara com prazo: 24 horas para desmentir o próprio vídeo.

E o timing é cruel para a chapa: Derrite disputa o Senado com o capital político herdado do comando da segurança pública de Tarcísio — a mesma gestão que agora acumula capítulos de escândalo, do caso Master aos problemas dos aliados. O candidato que vendeia competência em manter a ordem pública começa a campanha condenado a apagar a própria produção.

O outro lado

Derrite ainda vai se defender no processo, e é seu direito. Mas a peça de defesa terá de explicar um problema simples: por que um vídeo “verdadeiro” precisava ser retirado do ar em 24 horas — e por que foi, sem resistência? Quem tem documento não raspa conteúdo; quem tem documento anexa e segue campanha.

A conta final

A lição da semana cabe num parágrafo: a fake news de campanha custou a Derrite uma remoção judicial, R$ 1 mil por dia de teimosia e o título informal de candidato que estreou no Senado mentindo — na frase da coligação, imputação falsa vestida de fato. O ex-chefão da segurança pública paulista, que pregava “zero tolerância” ao crime, recebeu da Justiça a primeira tolerância zero da própria campanha. O vídeo saiu do ar; a marca, essa, ficou.