Para Keynes, é o gasto que determina a renda. As decisões de gasto definem o nível de atividade econômica. O gasto de uma pessoa constitui a renda de outra. Se alguém deixa de gastar, alguém deixa de receber. Se um indivíduo deixa de frequentar um restaurante, seu proprietário vende menos. Se todos fazem o mesmo, o restaurante fecha, trabalhadores são demitidos e a renda da economia diminui.
Assim, Keynes mostrou que o desemprego é um problema sistêmico de uma organização econômica inerentemente instável. Para ele, o gasto público tem um papel essencial a exercer, não apenas para amenizar ciclos econômicos, mas para induzir mudanças estruturais na organização da economia.
No entanto, o debate fiscal no Brasil ignora substantivamente o impacto que o aumento ou o corte de gastos tem sobre o crescimento econômico. Modelos de PIB potencial rebaixam o potencial de crescimento da economia brasileira e estipulam limites rígidos abstratos, frequentemente recalculados para se adaptar à realidade.
O Brasil não sofre de escassez de recursos, mas de má distribuição e subutilização desses recursos. Basta observar nossa desigualdade e para o enorme contingente de trabalhadores subocupados, a elevada informalidade e a capacidade produtiva frequentemente ociosa em diversos setores da economia.
As regras fiscais brasileiras também pouco dialogam com Keynes. A ideia de que o gasto do governo federal deva crescer sistematicamente menos do que a arrecadação dificilmente encontra respaldo na Teoria Geral. Na prática, trata-se de uma regra que reduz gradualmente o tamanho do Estado em relação ao PIB, uma vez que a arrecadação tende a acompanhar o crescimento da economia enquanto a despesa cresce abaixo dela.
Esse desenho institucional incorpora uma visão segundo a qual o gasto público é, por definição, um problema a ser contido, e não um instrumento de estabilização macroeconômica e de desenvolvimento.