A descrição no início do comunicado do cenário de atividade local traz uma visão de enfraquecimento mais espalhado na economia.
XP Investimentos, em nota
Eleições e petróleo
Ao contrário da XP, a maior parte das instituições consultadas pelo UOL projeta interrupção imediata nos cortes. Esses economistas argumentam que o Banco Central cumpriu o corte de juros já esperado, mas endureceu o tom ao indicar o encerramento das quedas devido à “desancoragem” das expectativas e pressões locais. “O corte estava contratado, e para mim ele é o de menos. O que importa é a mensagem, e o recado mais provável é que o ciclo chegou ao fim, ou muito perto disso”, diz o presidente-executivo da Gravus Capital, Ricardo Trevisan.
A resistência da inflação de serviços e o mercado de trabalho aquecido devem forçar uma pausa nos cortes. Analistas sustentam que o recuo da inflação se deveu à oferta de alimentos, mantendo os custos do setor de serviços incompatíveis com o centro da meta. “A gente imagina que ele [BC] vá fazer uma pausa até ter mais segurança na convergência da inflação. Portanto, a gente fecharia Selic nesse ano em 13,75% ao ano”, diz o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani. “Sem dúvidas, a inflação de serviços, a inflação de demanda tem uma melhora mais lenta do que o ideal. E o ritmo corrente dela está incompatível com o centro da meta”, reforça o economista-chefe da Fórum Investimentos, Bruno Perri.
O descompasso entre a política monetária brasileira e a das grandes potências globais reduz a atratividade financeira do real. O aperto monetário mundial —com o banco central americano subindo taxas e o preço do petróleo pressionado acima de US$ 100— reduz o ganho diferencial de taxas entre os países, enfraquecendo a moeda brasileira. “Cortar juros enquanto o mundo sobe estreita o diferencial e deixa o real mais vulnerável, e o Banco Central sabe disso”, diz Trevisan.
O período de incerteza política e a indefinição sobre o ajuste fiscal travam decisões mais ousadas do Banco Central. Os economistas alertam que o colegiado não assumirá compromissos de queda a longo prazo sem antes conhecer o plano econômico e fiscal das próximas reuniões que ocorrerão após as eleições. “Não faz sentido o Banco Central se comprometer com qualquer trajetória antes de saber qual será a política fiscal dos próximos quatro anos”, defende Trevisan. “Soma-se a isso a persistência das incertezas relacionadas ao ciclo eleitoral no curto prazo”, complementa o gerente de portfólio do Banco Sofisa, Rafael Pastorello.
