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Basta aparecer uma irregularidade na pele das pernas, um pouco de gordura localizada ou aquela celulite que incomoda há anos para surgir a dúvida: será que tenho lipedema?
Se antes muitas mulheres conviviam durante anos com a doença sem diagnóstico, hoje começamos a observar também o movimento contrário. O lipedema ganhou tanta exposição que alterações extremamente comuns do corpo feminino passaram, muitas vezes, a ser interpretadas como sinais de uma doença.
É importante que o lipedema tenha saído da invisibilidade. Trata-se de uma condição crônica do tecido adiposo que acomete predominantemente mulheres e pode provocar dor, sensibilidade, hematomas frequentes, sensação de peso e aumento desproporcional de volume, principalmente nos membros inferiores.
O problema começa quando conscientização se transforma em autodiagnóstico e características isoladas passam a receber o rótulo de lipedema.
+Leia também: Lipedema: conheça os dilemas envolvendo a doença e fuja de ciladas no tratamento
Celulite, gordura localizada e lipedema não são a mesma coisa
A celulite, tecnicamente chamada de lipodistrofia ginoide, é extremamente comum e produz aquelas ondulações e depressões características na superfície da pele. Ter celulite não significa ter lipedema. Da mesma maneira, acumular mais gordura nas coxas e quadris ou apresentar dificuldade para emagrecer determinadas regiões não estabelece o diagnóstico.
No lipedema, avaliamos um conjunto de características. A distribuição desproporcional e geralmente simétrica do tecido adiposo nas pernas e, em alguns casos, nos braços é uma delas. Dor e desconforto nos tecidos afetados ganharam importância ainda maior nas definições internacionais recentes.
Também podem ocorrer sensibilidade aumentada, sensação de peso e facilidade para formar hematomas. Mãos e pés, classicamente, tendem a ser poupados.
Isso não significa que todas essas características obrigatoriamente estarão presentes da mesma maneira em todas as pacientes. O diagnóstico é justamente difícil porque existe sobreposição entre obesidade, linfedema, doença venosa e características normais da distribuição de gordura corporal.
Em 2025, a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular publicou o Consenso Brasileiro de Lipedema, elaborado com participação de especialistas para estabelecer recomendações mais claras sobre diagnóstico e tratamento.
Em 2026, um novo consenso internacional reforçou a necessidade de padronização, mostrando que a própria medicina ainda trabalha para definir com maior precisão os critérios da doença.
Não existe um exame que diga: “você tem lipedema”
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para compreender por que não se deve fazer o diagnóstico olhando uma fotografia nas redes sociais. Até hoje, não existe um exame de sangue, marcador ou método de imagem que, sozinho, confirme que uma pessoa tem lipedema.
O diagnóstico permanece essencialmente clínico. É preciso ouvir a história da paciente, examinar a distribuição do tecido adiposo, avaliar sintomas e excluir outras condições capazes de produzir alterações semelhantes.
Exames complementares podem ser solicitados em determinadas situações, mas geralmente têm a função de investigar diagnósticos diferenciais, e não de fornecer um resultado positivo ou negativo para lipedema.
Isso também ajuda a entender por que vídeos com listas como “cinco sinais de que você tem lipedema” precisam ser vistos com cuidado. Identificar-se com dois ou três itens de uma postagem não equivale a receber um diagnóstico.
O perigo não está apenas em deixar de diagnosticar
O lipedema foi historicamente confundido com obesidade ou simplesmente atribuído ao peso da paciente, e aumentar o conhecimento sobre a doença foi uma conquista importante. Mulheres com dor e alterações significativas não devem ouvir simplesmente que precisam emagrecer.
Mas combater o subdiagnóstico não pode significar caminhar para o sobrediagnóstico. Quando qualquer celulite ou acúmulo de gordura passa a ser tratado como doença, mulheres saudáveis podem começar a enxergar características normais do próprio corpo como um problema médico.
Existe ainda uma consequência prática: o diagnóstico pode levar a tratamentos que envolvem compressão, fisioterapia, acompanhamento multidisciplinar e, em pacientes criteriosamente selecionadas, procedimentos cirúrgicos. Nenhuma intervenção deveria ser indicada apenas porque a aparência das pernas parece coincidir com fotografias vistas na internet.
O próprio Consenso Brasileiro de Lipedema ressalta a importância do tratamento conservador e da abordagem multidisciplinar, deixando a estratégia terapêutica dependente das características e dos sintomas de cada paciente.
Informação deve melhorar o diagnóstico, não criar uma epidemia
A maior visibilidade do lipedema trouxe um benefício inegável: mais mulheres passaram a procurar ajuda para sintomas que antes eram ignorados. A ciência também avançou e novas pesquisas estão tentando compreender melhor a origem da doença, seus critérios diagnósticos e as melhores formas de tratamento.
O desafio agora é encontrar equilíbrio. Nem voltar ao tempo em que o lipedema era praticamente desconhecido, nem transformar qualquer alteração estética das pernas em sinal da doença.
Celulite é comum. Gordura localizada é comum. Assimetria e diferentes formatos corporais também fazem parte da diversidade humana. Lipedema é uma condição médica e, justamente por isso, precisa de diagnóstico médico. Dar nome correto ao problema é tão importante para quem realmente tem a doença quanto para quem não tem.
Andréa Klepacz é cirurgiã vascular e membro da Brazil Health.
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

