Por um lado, a estabilização econômica permitiu que os bancos ampliassem os recursos disponíveis para empréstimos, após anos de um mercado de crédito restrito. Por outro, a inflação mais baixa fez com que o valor real das dívidas não recuasse tanto como acontecia quando a inflação era maior.
Ao mesmo tempo, as medidas de austeridade de Milei fizeram com que grande parte dos consumidores, como servidores públicos e aposentados – que viram sua renda encolher -, recorressem a empréstimos para manter o consumo. Tudo isso, enquanto a taxa real de juros ultrapassava a casa dos dois dígitos – às vezes, três.
A economista e pesquisadora Mariana González, do Centro de Pesquisa e Formação da República Argentina (CIFRA), destaca que, apesar de as contas do país estarem no azul, os argentinos das classes mais baixas estão em situação financeira delicada. “O inédito é o crescimento de 16% nos financiamentos individuais por fora do sistema bancário, em plataformas virtuais que cobram juros de até 700% ao ano”, aponta González.
O problema do endividamento das famílias não é exclusivo da Argentina. Assim como no Brasil, há combinação de crescimento baixo, juros elevados e a ampliação do mercado das bets, o que gera estragos em muitas famílias, afirma o economista brasileiro Fabio Giambiagi, do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). A diferença é como cada governo vem lidando com a questão. “No caso argentino, Milei tem tratado isso como um ‘problema entre particulares'”, diz.
Milei nega que o Estado tenha de se envolver no problema. Seu partido, o Liberdade Avança (LLA, na sigla em espanhol), ignora os quase 30 projetos de lei sobre endividados, que estão engavetados. “Ouvir o presidente dizer abertamente que ‘ninguém colocou um revólver na cabeça das pessoas para se endividarem’, denota uma falta de empatia raramente vista na História das democracias modernas”, observa Giambiagi.
Os temas econômicos ressoam no âmbito político e costumam ser decisivos em eleições, com mandatários, em geral, pagando preço alto diante da frustração de expectativas econômicas da população. Milei já anunciou que disputará um novo mandato em 2027. O resultado dirá se os avanços obtidos nas contas do país compensaram os custos sociais do ajuste fiscal.
