É que dizem que 2026 é “o ano do influenciador intelectual”. A revista “Vogue” o define como um criador que se destaca não pela aparência ou pelo estilo, mas pelo que sabe, pela expertise, pela obsessão por um assunto e pela capacidade de ter uma opinião informada. E falar sobre literatura é o ápice deste movimento.
Não é coincidência que a inteligência tenha virado desejável exatamente agora. Vivemos soterrados pelo que já chamam de AI Slop: a enxurrada de conteúdo gerado por inteligência artificial, que é algo rápido, mastigado, infinito e vazio. Qualquer um produz, em segundos, um carrossel bem-formatado dizendo nada.
Um estudo recente das universidades de Cornell e Minnesota mostrou que o número de lançamentos de livros triplicou entre 2022 e 2025, no embalo dos modelos de inteligência artificial. Livros feitos com IA já são mais da metade dos lançamentos. O escritor americano Daniel Pink resumiu o paradoxo numa frase: “um mundo de mais coisa é, inevitavelmente, um mundo de mais coisa ruim. E o bom gosto é o único antídoto”.
Não é por acaso que gravar um vídeo de cara limpa com pensamento crítico de verdade (uma opinião que só aquela pessoa, com aquela bagagem, poderia ter) virou a única coisa que a máquina ainda não fabrica barato. O pensamento humano original passou a ser um bem escasso. E bem escasso, na lógica do mercado, sempre foi tratado como luxo.
O influenciador intelectual é, no fundo, o oposto exato do consumidor que exibe o que comprou. Ele não mostra a bolsa nova, mostra o que leu. É o quiet luxury aplicado ao cérebro: Dua Lipa puxou esse bonde ao criar o clube de leitura Service95, que hoje virou plataforma de mídia e até livraria pop-up no Porto, Portugal, com obras apenas de autoras censuradas.
Pois numa economia que sequestra a nossa atenção em fatias de quinze segundos, ler um livro de papel virou uma ostentação silenciosa. Ostenta-se, ali, as duas coisas mais caras que existem hoje: tempo e atenção. Tempo para ler trezentas páginas sem retorno imediato, e atenção para sustentá-las sem checar o celular. E desacelerar, num mundo acelerado, é o privilégio-mor.
Por isso que fadiga digital também tem transformado a busca por conhecimento em um “lugar de pertencimento”. A vida intelectual saiu do quarto de estudo solitário e virou espaço social: clube de leitura, ciclo de palestras, café literário… É gente que, cansada de deslizar o dedo sozinha, decidiu que quer estar num lugar onde se pensa junto.
Quer um exemplo? Em Amsterdã, na Holanda, o coletivo The Offline Club organiza “offline reading raves”, atividades onde as pessoas vão para ler, em silêncio, juntas. A primeira edição, no rooftop de um museu, reuniu 300 pessoas; a segunda edição, na primeira semana de agosto, atraiu mais de 500 pessoas, segundo a organização.
Parece performático demais e não deixa de ser. Porque a mesma tendência que celebra a leitura também já a transformou em figurino. Repare que cada vez mais celebridades são flagradas por paparazzis com livros nas mãos, seja andando pelas ruas de Nova York ou relaxando em um iate em Ibiza.
Ou simplesmente vá a qualquer café superfaturado, de São Paulo a Lisboa, e lá estará: a pessoa de ecobag, matcha ao lado, com um livro estrategicamente aberto sobre a mesa (altas chances de ser algo da Bell Hooks).
O Pinterest deu nome a isso e projetou como uma das grandes tendências estéticas de 2026: o poetcore: gola alta, blazer vintage, bolsa carteiro e, claro, um livro. As buscas pela “estética do poeta” subiram 175%. E a indústria, sempre veloz, já capitalizou: na estreia à frente da Dior, o estilista Jonathan Anderson lançou uma linha de bolsas inspiradas em capas de romances clássicos.
