Precisamos mesmo de encomenda às 21h e delivery em 15 minutos?

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Precisamos mesmo de encomenda às 21h e delivery em 15 minutos?

Toda essa velocidade tem um corpo. E esse corpo quase sempre pertence a alguém que acredita estar sendo livre: o entregador que faz os corres achando que esse tipo de trabalho o permite ser senhor do próprio tempo.

E há quem tenha ido às ruas medir isso de perto. O sociólogo Douglas Alexandre Santos, da USP, trabalhou seis meses como entregador de bicicleta do iFood em São Paulo para a sua dissertação de mestrado, premiada como a melhor do programa de pós-graduação de sociologia da universidade em 2025.

Segundo Santos, o algoritmo não perdoa a prudência. O tempo que o app dá para cada entrega ignora o trânsito, o semáforo, a chuva, o buraco na ciclovia. E como o sistema recompensa quem entrega mais rápido, o entregador é empurrado, sem que nenhuma ordem seja escrita, a furar o sinal e a costurar entre os carros.

Certa vez, ao perder uma entrega porque a corrente da bicicleta alugada estourou, Santos avisou o aplicativo esperando alguma tolerância. Recebeu o oposto: além de perder o pedido, levou um bloqueio automático de 15 minutos, proibido de aceitar novas corridas. Nas palavras dele, “o trabalhador arca com todos os custos e riscos da infraestrutura, enquanto a plataforma pune qualquer desvio de produtividade”.

É essa a mentira mais eficiente do modelo: convence quem tem um carro, uma moto ou uma bicicleta e roda a cidade até a madrugada de que ele é dono do próprio negócio, um microempresário de si mesmo. Quando, na verdade, ele é a peça que absorve tudo o que a empresa terceirizou: o veículo, a gasolina, o desgaste, o acidente, o risco. A terceirização de Nova York existe exatamente para isso: para que a corporação nunca seja patrão de ninguém, e nunca responda por ninguém.

E há um custo mais silencioso, que não aparece na conta de nenhum dos lados. Se dá para receber tudo em casa em minutos, por que descer até a esquina e fazer um pedido para viagem? O mercadinho da rua e a padaria perdem as suas funções. O restaurante do bairro vira uma “dark kitchen”, uma cozinha sem salão, sem mesa, sem garçom, existindo só para despachar embalagens que ninguém come no local. Um a um, os pequenos pontos de encontro do cotidiano vão desaparecendo.