Quando a testosterona é considerada baixa? Médicos lançam 1º consenso sobre o tema

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Quando a testosterona é considerada baixa? Médicos lançam 1º consenso sobre o tema

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Três sociedades médicas se uniram para publicar o primeiro posicionamento conjunto brasileiro sobre reposição de testosterona e hipogonadismo, a deficiência do hormônio. 

O consenso surge como uma resposta — baseada em evidências científicas — a algumas dúvidas comuns, como: quando os níveis hormonais masculinos realmente devem ser examinados? Quando são considerados baixos? E quando é preciso fazer reposição?

Assinam o material as Sociedades Brasileiras de Urologia (SBU), de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira de Medicina Sexual e Saúde (ABEMSS).

Um contexto de preocupação

Entre os pontos abordados, o documento define que os valores de testosterona total abaixo de 264 ng/dL podem sustentar o diagnóstico de problemas de saúde, enquanto resultados acima de 350 ng/dL estão dentro da normalidade.

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Cravar essas marcas é especialmente importante em tempos em que alguns médicos e influenciadores incensam nas redes sociais o discurso da testosterona como remédio para qualquer desilusão da vida adulta.

“O motivador do documento foi a preocupação com os homens que têm a doença e não recebem tratamento correto e com os conteúdos nas redes que estimulam um uso inadequado do hormônio”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, presidente ABEMSS e diretor da SBEM, além de autor de um dos maiores tratados médicos nacionais sobre o tema, Testosterona: Dos Aspectos Básicos aos Clínicos.

Cansaço, libido baixa, potência diminuída, ganho de músculos… não param de brotar publicações onde tudo parece um motivo para repor esse hormônio — que, aliás, deve estar sempre “explodindo” no corpo, dizem eles.

Mas, afinal, o que realmente mostra a ciência? Confira a seguir.

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+Leia a seguir:  As promessas da testosterona: entenda, de vez, se você deve usar ou não

Quando fazer reposição de testosterona?

Em um vídeo do Tiktok, um médico lê a pergunta de um seguidor: “tenho 38 anos e minha testosterona está em 340 mg/dL. Está baixa? O que fazer?”. E ele responde, sem pestanejar: “Repor! Está baixíssima!”.

Em seguida, o doutor afirma que, com base em valores de referência, o número poderia ser considerado normal. “Mas esse ‘normal‘ não é bom”, atesta, enquanto crava que valores saudáveis estariam entre 800 e 900 ng/dL.

Não é bem isso, porém, que a literatura médica indica. Pelo contrário, as autoridades no assunto atestam: “as pessoas têm que parar de achar que mais é melhor”, diz Hohl.

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Segundo o consenso, se, por um lado, há risco cardiovascular em indivíduos com níveis extremamente baixos, maiores ainda são os perigos para aqueles com taxas acima do natural humano (mais do que 900ng/dL, por exemplo).

Por isso, a reposição de testosterona só é indicada em casos específicos: quando o sujeito enfrenta um quadro de hipogonadismo.

Essa é uma condição em que o organismo não produz testosterona suficiente, seja por uma falha nos testículos (gônadas), seja por alterações nas estruturas do cérebro que controlam sua produção.

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O paciente pode ter sintomas como queda da libido e redução das ereções espontâneas.

Quando a testosterona é considerada baixa?

É aqui que entram os números definidos pelo consenso, que devem ser usados exclusivamente para diagnosticar ou descartar quadros de hipogonadismo.

Segundo cravado pela diretriz, a condição é confirmada quando os números estão abaixo de 264 ng/dL, acompanhados de sintomas. Já com níveis acima de 350 ng/dL, a condição geralmente é descartada.

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Existe, porém, uma zona cinzenta: o meio do caminho entre 264 e 350 ng/dL. Este é, por exemplo, o caso do exemplo recebido pelo médico Tiktoker.

Mas a resposta aqui não é a reposição hormonal imediata. Nesses casos, o número, sozinho, não permite concluir que há deficiência. Assim, o médico pode pedir exames de testosterona livre, que ajudam a estimar quanto do hormônio está efetivamente disponível para agir no organismo.

Para calculá-la, são levados em conta a testosterona total e a SHBG, uma proteína que se liga ao hormônio no corpo. Se o resultado desta conta for abaixo de 6,5 ng/dL, ele é diagnosticado com hipogonadismo.

Se estiver acima, o paciente é considerado normal. Assim, em caso de sintomas como baixa libido e disfunção sexual, outras causas devem ser investigadas, como a depressão.

No mais, qualquer número dentro dessas características ou acima de 350 ng/dL é, sim, saudável“Não há evidência científica de que uma pessoa tenha melhor qualidade de vida com uma testosterona de 600 ng/dL do que com 400 ng/dL. Os dois valores estão dentro da normalidade”, alerta Hohl.

Queda de testosterona é normal

É importante diferenciar envelhecimento normal de hipogonadismo. Afinal, o hormônio pode cair gradualmente com a idade — aproximadamente 1,6% ao ano –, mas isso, por si só, não representa um risco à saúde, tampouco à qualidade de vida.

Por isso, em qualquer idade, um homem saudável não deve fazer reposição simplesmente pela promessa de aumentar a disposição, ganhar músculos, melhorar desempenho sexual ou “otimizar” o organismo.

Nesses casos, não há evidência de benefícios e o tratamento pode ter efeitos indesejados, incluindo supressão da produção de espermatozoides e prejuízo à fertilidade, além de riscos cardiovasculares ligados ao abuso do hormônio.

Quando dosar a testosterona?

Outro ponto importante é que a própria dosagem de testosterona não deve fazer parte do check-up de rotina.

A investigação só é indicada quando há uma suspeita clínica, e não simplesmente para descobrir se o hormônio está “alto” ou “baixo”.

A lógica é semelhante à de outros problemas de saúde. “Ora, uma pessoa só irá investigar a possibilidade de enxaqueca caso sinta dores de cabeça. Do mesmo modo, um homem sem queixas não precisa investigar a testosterona”, compara Hohl.

Diagnóstico vai além dos números

Mesmo homens com níveis considerados realmente baixos de testosterona não têm, necessariamente, hipogonadismo.

É que, lembre-se: o diagnóstico só existe entre pessoas que, além dos números, também têm sintomas compatíveis com o quadro.

“Isso porque o que determina o funcionamento do organismo é o número de receptores da testosterona. É ele quem define se um indivíduo vai ter sintomas ou não”, explica Leonardo Seligra, supervisor da Disciplina de Medicina Sexual do Departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia.

Desse jeito, uma pessoa com baixa testosterona pode ter mais receptores ou maior sensibilidade a eles, aproveitando melhor o hormônio disponível.

Já outra, com níveis mais altos, pode ter menos receptores ou menor sensibilidade e, assim, apresentar sintomas.

Por isso, para ser diagnosticado, é preciso ter a combinação entre exames de sangue e sinais clínicos. “O homem deve desconfiar, principalmente, quando há problemas na esfera sexual, como queda de libido e diminuição das ereções espontâneas, matinais ou noturnas”, explica Hohl.

Nem todo mundo com hipoganismo deve fazer reposição

Para pacientes com hipogonadismo confirmado e sintomas persistentes, a terapia de reposição é uma opção terapêutica importante.

Mas o consenso ressalta que a indicação deve ser individualizada, com avaliação de riscos e benefícios e acompanhamento clínico e laboratorial regular.

Em qual valor estabilizar as taxas?

Outro ponto trazido pelo material é que, quando a reposição é realmente indicada, a ideia não é deixar a testosterona o mais alta possível.

“A meta é manter esse paciente na faixa de normalidade, com níveis entre 400 e 600 ng/dL“, explica Seligra. Isso porque, de novo, níveis excessivamente elevados podem aumentar riscos associados ao tratamento.

Outras causas para a queda de testosterona

O consenso também recomenda descobrir por que a testosterona está baixa antes de optar pelo tratamento hormonal.

Obesidade, diabetes, doenças crônicas e o uso de alguns medicamentos, como opioides e corticoides, podem reduzir os níveis do hormônio.

Em alguns casos, corrigir o problema de origem pode ser suficiente para recuperar a testosterona.

Por exemplo, homens com obesidade podem ter um tipo hipogonadismo chamado de “funcional“. Nesses casos, mudanças no estilo de vida e perda de peso são a primeira linha de tratamento.

Reposição e uso de anabolizantes não são a mesma coisa

Por fim, é válido dizer que, embora ambos envolvam testosterona, reposição hormonal e uso de anabolizantes são coisas bem diferentes. 

Na primeira, o objetivo é corrigir uma deficiência comprovada e manter o hormônio dentro de níveis naturais do corpo.

Já no uso das chamadas “bombas“, são comuns doses suprafisiológicas de testosterona e seus derivados sintéticos, ou seja, muito acima do que o organismo produziria naturalmente. E é justamente aí que os riscos aumentam.

Quanto maior a exposição ao hormônio, maior o potencial de efeitos adversos, que podem incluir diminuição dos testículos, acne intensa, retenção de líquidos, aumento da pressão arterial, piora da apneia do sono e alterações importantes de humor e libido.

O uso em doses elevadas também pode provocar alterações no colesterol, problemas no fígado e no coração, como arritmias e aumento do risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), trombose e embolia pulmonar.

Em alguns casos, ainda pode haver dependência e sintomas de depressão após a suspensão.

Por isso, a principal mensagem do trabalho publicado pelos médicos brasileiros é, segundo Seligra: “não existe fórmula mágica”.

“A testosterona é, sim, um hormônio importante para a saúde masculina, mas a reposição hormonal deve ser feita para quem tem indicação e com acompanhamento adequado”, afirma.

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