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Nos últimos meses, a busca pela magreza voltou a ocupar um espaço central nas redes sociais. Fotos de “antes e depois”, vídeos de transformações em poucas semanas e comentários sobre corpos cada vez menores circulam diariamente e alimentam uma ideia perigosa: a de que emagrecer seria sinônimo de saúde, beleza ou conquista.
Nesse cenário, os agonistas de GLP-1 e GIP, como semaglutida e tirzepatida, entraram na conversa. Eles representam um dos maiores avanços recentes da medicina metabólica e têm resultados importantes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. O problema não está na medicação em si, mas no risco de transformá-la em mais uma ferramenta a serviço da pressão estética.
Na prática clínica, eu observo uma preocupação crescente: pessoas que procuram essas terapias não necessariamente porque têm uma doença a tratar, mas porque desejam perder poucos quilos rapidamente, alcançar um padrão corporal específico ou manter uma magreza que, em alguns casos, já ultrapassa os limites do saudável.
Dados recentes ajudam a dimensionar o movimento: análises de padrões de prescrição mostram que o uso desses medicamentos por pessoas sem as indicações clássicas cresceu de 4,5% em 2018 para 17% em 2023. Nos Estados Unidos, uma pesquisa de novembro de 2025 indicou que cerca de 1 em cada 8 adultos já usou algum medicamento dessa classe.
O que é agonorexia e por que esse termo chama atenção
Começou a circular, então, o termo agonorexia. É importante esclarecer que ele não é um diagnóstico médico reconhecido pelos principais manuais de psiquiatria.
A expressão vem sendo usada para descrever uma preocupação: situações em que a intensa supressão do apetite provocada por medicamentos, somada a uma relação já conflituosa com o corpo e com a comida, pode favorecer comportamentos alimentares excessivamente restritivos.
Isso merece atenção porque os medicamentos que atuam sobre GLP-1 e GIP não agem apenas diminuindo a fome. Estudos mostram que eles também podem influenciar mecanismos relacionados à recompensa e ao interesse por alimentos.
Para muitas pessoas, esse efeito é parte importante do tratamento. Mas, em alguém vulnerável a transtornos alimentares ou extremamente pressionado pela busca da magreza, a redução intensa da fome pode favorecer uma restrição alimentar que ultrapassa aquilo que seria saudável.
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O alerta da literatura científica
No início deste ano, o New England Journal of Medicine publicou uma perspectiva intitulada GLP-1 Receptor Agonists and Eating Disorders – Cause for Concern, discutindo exatamente a necessidade de olhar com mais cuidado para a relação entre os agonistas e os transtornos alimentares.
O alerta não significa que esses medicamentos causem, por si só, um distúrbio psiquiátrico. A questão é entender melhor quem está usando essas terapias, os motivos e quais comportamentos podem surgir ou ser potencializados durante o tratamento.
Há ainda outro ponto fundamental: perder peso não significa, automaticamente, perder gordura. A perda de peso rápida e sem acompanhamento profissional pode comprometer a massa magra, que é vital.
Na subanálise de composição corporal de um estudo que avaliou a semaglutida em pessoas com sobrepeso ou obesidade, houve redução importante da massa de gordura, mas também da massa magra: quase 40% do peso perdido veio de tecido magro.
Por isso, acompanhar a composição corporal, garantir uma alimentação adequada e estimular exercícios de força fazem parte de um tratamento responsável. Saúde não é apenas ver um número menor na balança. Uma pessoa pode emagrecer e, ao mesmo tempo, perder músculos, força e qualidade de vida.
Existe ainda um componente psicológico que não pode ser ignorado, especialmente entre pessoas que utilizam esses medicamentos sem indicação clínica, com objetivos exclusivamente estéticos. Após a perda de peso, algumas podem desenvolver um medo intenso de interromper o uso por receio de recuperar os quilos perdidos, criando uma espécie de dependência psicológica da medicação.
Quando o medicamento deixa de ser percebido dentro de um contexto terapêutico e passa a funcionar como uma garantia emocional contra o ganho de peso, é preciso avaliar o que está acontecendo.
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O papel das redes sociais
As redes sociais tornam essa relação ainda mais complexa. Elas frequentemente mostram apenas o resultado, sem revelar diagnóstico, indicação médica, efeitos adversos, acompanhamento nutricional ou o histórico de saúde daquela pessoa. O que aparece como uma transformação desejável pode, para outro paciente, representar um novo padrão impossível de alcançar.
Não podemos cometer o erro de demonizar medicamentos que têm transformado a vida de pacientes com obesidade e doenças metabólicas. Essas terapias são ferramentas valiosas e podem oferecer benefícios que vão muito além do emagrecimento.
Ao mesmo tempo, seu uso não deve ser tratado como um atalho para alcançar um padrão estético. O objetivo de um tratamento não deve ser simplesmente comer o mínimo possível ou alcançar o menor número na balança. Saúde envolve preservar músculos, nutrir o organismo, cuidar da saúde mental e tratar doenças quando elas existem.
Em uma época em que a magreza voltou a ser vendida como ideal, talvez a pergunta mais importante não seja “quanto peso eu posso perder?”, mas “o que estou buscando e o que estou disposto a perder para alcançar esse corpo?”.
*Elaine Dias JK, endocrinologista e metabologista, PhD pela Universidade de São Paulo (USP)
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

