
Hoje, pouca gente questiona o papel do exercício na saúde e no bem-estar. Mesmo quem tem doenças crônicas conhece os benefícios de se manter ativo. Mas nem sempre foi assim. Na reumatologia, que lida com doenças autoimunes, a atividade física foi um tabu difícil de superar.
Até a década de 1950, algumas recomendações enfatizavam o repouso – em oposição ao movimento – como tratamento para doenças como artrite reumatoide e miosites.
A abordagem era semelhante para o lúpus, doença autoimune em que as defesas do organismo passam a atacar diferentes órgãos e tecidos do próprio corpo. O receio de médicos e cientistas era que o exercício pudesse exacerbar a inflamação sistêmica característica da condição.
Apenas nos anos 2000 iniciamos um programa de pesquisa dedicado a investigar se o exercício poderia ser seguro e eficaz para pacientes com lúpus. Num primeiro momento, fomos cautelosos: avaliamos se uma única sessão de exercício aeróbico produziria uma resposta inflamatória exacerbada. Não observamos isso.
Em seguida, testamos o efeito de um programa de exercícios aeróbios durante três meses. As mulheres com lúpus que participaram do estudo apresentaram redução de alguns marcadores inflamatórios, que se aproximaram dos níveis observados em pessoas sem a doença.
Estava aberta a porta para explorar os benefícios de se exercitar nessa população.
De fato, pesquisas subsequentes identificaram uma série de ganhos em pacientes fisicamente ativos – de melhorias na saúde cardiovascular e metabólica à qualidade de vida, passando pela redução da dor e da atividade da doença. O exercício, quando bem prescrito, não apenas é seguro como pode integrar o tratamento.
Se o medo de antes foi substituído pelo entusiasmo com o exercício, outros obstáculos permanecem. Nem todo paciente tem acesso a locais e profissionais capacitados para promover a atividade física. Além disso, levantamento realizado pelo nosso grupo revela que, embora os reumatologistas reconheçam a importância do exercício, poucos conhecem a fundo as recomendações para sua prescrição.
Educação médica, disponibilidade de especialistas e oferta de equipamentos e espaços públicos são alguns dos gargalos que ainda dificultam a adesão dos pacientes ao exercício.
* Bruno Gualano é professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP.
