Charles Spencer sempre ocupou um lugar complicado na história da Princesa Diana. Irmão mais novo e companheiro de uma infância marcada pela separação dos pais, tornou-se, depois da morte dela, um dos principais guardiões de sua memória, mas nunca foi um narrador neutro: seus divórcios, sua relação turbulenta com a imprensa e até uma antiga desavença com Diana sobre uma casa em Althorp fizeram dele uma figura tão contraditória quanto a família que costuma criticar.
Agora, às vésperas dos 30 anos da morte da princesa, o Conde Spencer, que também é autor de best-sellers, lança Canto do Cisne: Diana, Minha Irmã, em 22 de setembro. Ele diz que decidiu escrever o livro porque voltou a ser procurado para inúmeras entrevistas e preferiu registrar “de uma vez por todas” suas próprias lembranças, corrigindo o que considera inverdades repetidas ao longo das décadas. Sem se contentar, segundo seus opositores, em acrescentar algumas inverdades de sua autoria também.
O primeiro grande impacto já veio. Spencer afirma que, durante uma discussão sobre William e Harry caminharem atrás do caixão da mãe, o então príncipe Charles teria dito: “Fique tranquilo, ela será esquecida em breve.” Uma frase que atinge diretamente o coração dos fãs de Diana e apaga a imagem atual do rei como um homem sensível e cuidadoso. Buckingham Palace reagiu de forma excepcionalmente dura, dizendo que “a dor do luto fraterno pode obscurecer a razão, afetar o julgamento e colorir a memória”.
A frase é quase uma nova versão do famoso “recollections may vary”, usado pela rainha Elizabeth após a entrevista de Harry e Meghan a Oprah. E talvez esteja aí a questão mais interessante do livro. A memória não funciona como uma gravação: acontecimentos emocionalmente intensos podem permanecer vívidos e, ainda assim, mudar nos detalhes ao longo do tempo. Spencer pode estar sinceramente convencido de sua lembrança e Charles também pode estar sobre sua intenção quando conversou com o ex-cunhado. Afinal, quase trinta anos depois, a disputa não é apenas sobre o que aconteceu após a morte de Diana, mas sobre quem tem o direito de transformar sua própria lembrança em História. E a disputa só alimenta a imprensa, os fãs e o drama da Família Real britânica.
