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Imagine se existisse uma molécula capaz de provocar uma perda de peso comparável à da cirurgia bariátrica sem causar os efeitos colaterais das atuais canetas emagrecedoras e, de quebra, não deixasse o corpo entrar em “modo economia”, gastando sempre mais calorias.
Por algum tempo, a ciência acreditou que ela existia. Seu nome, ou melhor, seu código, era GDF-15.
Produzido naturalmente pelo organismo em situações de estresse, como infecções e outras doenças, esse peptídeo ganhou destaque em 2017, quando pesquisadores descobriram sua atuação em uma região do cérebro ligada ao controle da saciedade.
Surgia ali uma hipótese ambiciosa: se o organismo usa esse sistema para desligar o apetite durante uma gripe ou diante de um câncer, talvez fosse possível mimetizá-lo para tratar a obesidade, com a possível vantagem de preservar massa magra e não provocar náuseas e enjoos típicos de Ozempic e afins.
Os resultados dos testes em animais alimentaram o entusiasmo: em 2023, um estudo publicado na famosa revista científica Nature mostrou que, depois de seis semanas de tratamento, camundongos obesos que receberam a dose mais alta de GDF-15 perderam 23% do peso corporal.
E o melhor: eliminaram só gordura, processo acompanhado de um aumento no gasto energético, justamente o oposto ao que costuma acontecer durante o emagrecimento.
A expectativa dos pesquisadores e da indústria era gigantesca, e várias empresas tentaram transformar o GDF-15 em medicamento. Eli Lilly, Novartis, Novo Nordisk, Janssen e Pfizer, todas essas gigantes criaram suas versões do peptídeo, que também foi bem-sucedido em testes com macacos.
Mas faltava a prova de fogo: as pesquisas com humanos. E foi aí que uma das maiores promessas recentes deu com os burros n’água.
A molécula da Lilly conseguiu reduzir a fome e a ingestão de alimentos, mas a perda de peso foi irrisória: cerca de 3% a mais que o placebo (uma substância inerte) após 12 semanas. E, ao contrário do que acontecia nos animais, apareceram muitas náuseas e vômitos relacionados à alta dose.
A tentativa da Novartis teve resultado parecido: testado em 126 pessoas com obesidade, produziu uma diferença máxima de menos de 2 kg em relação ao placebo após 16 semanas, além de náusea em 71% e vômito em 40% dos participantes.
Diante desses números, os laboratórios abandonaram a ideia. Na verdade, mudaram de ideia: hoje, cientistas investigam como bloquear a via desse peptídeo, em vez de ativá-la. A proposta é evitar a perda de peso indesejada que pode acompanhar o tratamento do câncer.
O caso do GDF-15 revela um dos maiores problemas da atual febre dos peptídeos: entre algo promissor no laboratório e um tratamento eficaz, existe um caminho longo — cheio de fracassos.
“Menos de 5% das moléculas estudadas pela indústria viram medicamentos”, afirma o imunologista Braian Sousa, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP).
“Estudos em animais não garantem que um peptídeo funcione em humanos ou não tenha riscos”, frisa o médico, que atua no Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Mas muita gente não faz ideia da complexidade envolvida no desenvolvimento de uma terapia segura e eficiente, e acaba sendo ludibriada — tanto que o tal do GDF-15 é vendido ilegalmente nos Estados Unidos.
Precisamos separar o joio do trigo. Peptídeos não carregam promessas vazias nem são uma panaceia. Na verdade, alguns deles transformaram a medicina, como a insulina, que salva pessoas com diabetes há mais de um século, e os agonistas de GLP-1, das canetas de Ozempic e Mounjaro, que revolucionaram o tratamento da obesidade.
O desafio é distinguir o que conta com evidências e aprovação do que não passa de uma molécula experimental. O duro é que, revestidos de uma aparência científica, hoje há peptídeos prometendo quase tudo: emagrecer, ganhar músculo, melhorar a pele, retardar o envelhecimento…
Muitos são vendidos clandestinamente em grupos de mensagens, clínicas ou academias. E até o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr. (famoso pelas posturas negacionistas), fornece munição a essa tendência, afirmando que é preciso aprovar novos peptídeos. Será? Está na hora de tirar essa história a limpo.
Nesta reportagem, você confere:
- O que são peptídeos
- Peptídeos como uma nova fronteira para a medicina
- A farsa dos falsos discursos científicos
- Médicos que prescrevem peptídeos não aprovados: exercício ilegal da medicina
- O lucrativo mercado dos peptídeos ilegais
- A extrapolação de peptídeos aprovados
- Os peptídeos mais populares do mercado
- Peptídeos para performance
- A verdade sobre TB-500 e BPC-157
- GHK-Cu: a ilusão da estética
- Riscos de usar peptídeos não aprovados
- Como separar a verdade do charlatanismo

O que são peptídeos
Para começar, voltemos ao básico: afinal, o que são peptídeos? Antes de serem vendidos em frascos, canetas e seringas, essas moléculas já estavam por toda parte — inclusive dentro de nós. Eles são pequenas sequências formadas por combinações de aminoácidos, as mesmas “peças” que dão origem às proteínas.
Para entender a diferença, o biomédico Daniel Carvalho Pimenta, que trabalha com caracterização de peptídeos no Instituto Butantan, propõe imaginar um jogo de Lego: existem 20 aminoácidos naturais que funcionam como as peças básicas, e a maneira como elas são combinadas e ordenadas dá origem a moléculas completamente diferentes.
“São como letras; em diferentes posições, elas escrevem palavras diversas”, compara.
Formalmente, a distinção entre peptídeo e proteína está no tamanho e na conformação espacial. Ambos são cadeias de aminoácidos, mas as proteínas são estruturas maiores, que precisam se dobrar e se enovelar para desempenhar suas funções biológicas; já os peptídeos são menores e geralmente lineares.

Mesmo não existindo uma fronteira rígida e universal entre as duas categorias, costuma-se chamar de peptídeo uma cadeia de até cerca de 100 aminoácidos, podendo haver exceções por vários motivos. O próprio GDF-15, muito chamado de peptídeo dentro e fora dos laboratórios, possui 112 aminoácidos em sua forma final, o que já o configuraria como uma proteína.
As funções dessas moléculas também tendem a ser bem diferentes. As proteínas, de maneira geral e simplificada, cumprem quatro grandes papéis no organismo: dão estrutura aos tecidos, como músculos, pele, cabelos e ossos; atuam no metabolismo, formando enzimas que aceleram reações químicas; transportam e armazenam substâncias, como a hemoglobina, que carrega oxigênio no sangue; e participam das nossas defesas, por meio de anticorpos e companhia.
Como resume Pimenta, esses conjuntos de Lego estão ligados “à construção e à manutenção do organismo”.
Já os peptídeos atuam majoritariamente como mensageiros químicos. “O corpo se comunica por basicamente dois sistemas: ou é impulso elétrico, uma transmissão pelos nervos, ou é comunicação química”, explica o biomédico. Na primeira via, impulsos percorrem o sistema nervoso; na segunda, moléculas são liberadas por um tecido ou órgão e levam informações a outras partes do corpo.
Os hormônios, por exemplo, fazem parte da segunda turma, e os peptídeos estão entre as moléculas que podem exercer esse papel. Por isso, naturalmente, eles estão espalhados dentro de nós.
No coração, o peptídeo natriurético atrial (ANP) participa da regulação da pressão arterial e do equilíbrio de sódio e água. No aparelho digestivo, o peptídeo YY (PYY) ajuda a sinalizar saciedade. No cérebro, endorfinas participam da modulação da dor. Na reprodução, a kisspeptina ajuda a controlar o eixo que coordena a produção de hormônios sexuais (muitos deles também peptídicos).

Isso tudo demonstra que não existe um sinal único associado à palavra peptídeo: a sequência de aminoácidos de cada um é que determina sua resposta.
Nosso corpo produz essas moléculas em quantidades minúsculas, mas elas desencadeiam reações importantes justamente porque carregam instruções altamente específicas.
Peptídeos como uma nova fronteira para a medicina
É a capacidade de imitar, bloquear ou modular mensagens que o próprio corpo produz que colocou os peptídeos feitos em laboratório no centro de uma das fronteiras mais promissoras da medicina.
Ao identificarem uma molécula natural e entenderem qual mensagem ela transmite, pesquisadores podem tentar reproduzi-la ou direcioná-la para uma função exata. Além disso, diferentemente de proteínas maiores e mais complexas, foi se tornando mais factível produzir peptídeos.
“Nas últimas décadas, as técnicas pra fabricar essas moléculas avançaram bastante”, afirma a bióloga Ana Bonassa, doutora pela USP. “Conhecemos o GLP-1, presente nas canetas emagrecedoras, desde a década de 1980, mas não tínhamos como produzir algo que imitasse o natural pois ele se degradava rápido demais”, conta a divulgadora científica do popular perfil @nuncavi1cientista.
Até que a indústria deu um jeito nisso — e hoje vivemos a era de Ozempic e Mounjaro. “Diversos desafios que impediam a transformação de peptídeos em remédios, inclusive baixa absorção e ação por curto tempo, foram solucionados.”

Ou seja: o potencial por trás dessas moléculas é gigantesco. Mas a especificidade que as torna tão viáveis e promissoras também ajuda a entender por que não existe uma “bala mágica”, capaz de servir para tudo no organismo. E também como é perigoso mexer na coordenação fina que rege o corpo humano.
A farsa dos falsos discursos científicos
Quando se fala em peptídeos, uma das alegações mais comuns é que eles permitiriam fazer um biohacking do corpo — isto é, tratar o próprio organismo como um sistema que pode ser hackeado para alcançar mais performance, saúde ou longevidade.
A ideia parece sedutora porque vem de algo que é, de fato, biológico: eles são, sim, moléculas sinalizadoras, capazes de atuar sobre alvos específicos e, em alguns casos, estão associadas à medicina de precisão.
O problema é que transportar para a biologia a lógica de uma máquina, em que basta identificar uma peça e ajustá-la para obter determinado resultado, nem sempre funciona.
“Estão tirando um termo que vem da computação, uma ciência exata, e aplicando a um sistema biológico extremamente fluido e autorregulado”, pondera Sousa. “Não funciona assim. Não é algo cartesiano. É dinâmico e, como muitos processos acontecem ao mesmo tempo, há uma exigência de muito cuidado”, prossegue o imunologista.
Só que aquele tipo de discurso, que alimenta a venda de peptídeos não aprovados, ganhou força à medida que conceitos científicos passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano.
A pandemia de covid acelerou esse processo: vacinas, imunidade, ensaios clínicos e mecanismos do organismo deixaram os livros e consultórios e chegaram às redes sociais.
O resultado foi positivo em muitos aspectos, mas também abriu espaço para uma espécie de “fisiologia de boteco”, em que conceitos verdadeiros são simplificados, retirados de contexto e, às vezes, conectados a conclusões que a ciência não sustenta. E essa tática nem é nova: Aristóteles, séculos antes da internet, já chamava de sofisma o argumento que parece correto, mas usa a lógica de maneira enganosa para chegar a uma conclusão falsa.
“Vemos pessoas pegando conceitos da biologia, falando de mecanismos que nem existem, e associando tudo isso a soluções sem respaldo para vender produtos”, critica o médico Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
É assim que uma molécula pode ganhar, no marketing digital, funções que nunca foram comprovadas em humanos. E, veja só, a maioria dos peptídeos injetáveis vendidos atualmente não é autorizada para comercialização no Brasil justamente porque não há evidências clínicas suficientes que sustentem seu uso.
“Muitas dessas moléculas foram estudadas em animais, mas acabaram sendo descartadas por não mostrar benefício nos testes com pessoas”, destrincha o cirurgião bariátrico e pesquisador na área de obesidade Cid Pitombo, colunista de VEJA.
“Mas alguns maus laboratórios pegam o formato da molécula, fabricam e comercializam a substância, ainda apresentando o estudo em animais quando se questiona a procedência daquilo.”

Médicos que prescrevem peptídeos não aprovados: exercício ilegal da medicina
A confusão aumenta quando esse tipo de produto é prescrito ou até aplicado por médicos em consultórios e clínicas. Afinal, se até um “doutor” (que muitas vezes se apresenta como “especialista em longevidade”, “modulação hormonal” ou “regeneração”) recomenda peptídeos não autorizados, parece ao paciente que se trata de um tratamento reconhecido pela ciência. Mas não é.
“Um profissional ético não pode divulgar especialidades que não existem nem aplicar moléculas experimentais. É uma falha muito grave”, afirma Jeancarlo Fernandes Cavalcante, 3º vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Ele acrescenta que médicos que adotam essas práticas podem ser submetidos a sanções e até cassação pelos respectivos Conselhos Regionais de Medicina. “Para esses profissionais, o maior apelo é o monetário, não a saúde do paciente”, critica Macedo.
O lucrativo mercado dos peptídeos ilegais
Realmente, o mercado de ampolas e seringas embaladas por essas promessas já movimenta cifras expressivas. O valor das apreensões de peptídeos pela Receita Federal saltou de R$ 5,7 milhões em janeiro para R$ 15,7 milhões em julho de 2026, alta de 173% em apenas sete meses.
A maior parte corresponde a versões ilegais de tirzepatida e retatrutida (medicamento da Eli Lilly que ainda está sob estudos), mas outros peptídeos, como GHK-Cu, BPC-157, TB-500, ipamorelina e IGF-1 LR3, receitados para fins de performance, estética e longevidade, também aparecem de forma relevante na lista.
E olha que esses números devem estar subestimados. A Anvisa informou em nota a VEJA SAÚDE que muitas das remessas que chegam ao Brasil aparentando ser de peptídeos não dispõem de qualquer identificação, rotulagem, indicação de fabricante, impedindo sua correta classificação.
“Além disso, é frequente a constatação de inconsistências entre o conteúdo efetivamente transportado e as informações declaradas pelos remetentes, o que dificulta a identificação das substâncias e a produção de estatísticas confiáveis por produto”, diz a agência.
Traduzindo: o problema provavelmente é ainda maior do que se imagina.
A extrapolação de peptídeos aprovados
Depois de tudo isso, você ainda vai encontrar gente falando que alguns peptídeos não aprovados no Brasil são seguros, sim, porque são autorizados pela agência regulatória americana (FDA) ou europeia (EMA). Mas vale conferir para que, exatamente, eles foram aprovados.
“O peptídeo SS-31, por exemplo, foi aprovado pela FDA apenas para uma condição específica, a síndrome de Barth, que é uma cardiopatia rara e hereditária, em que a pessoa possui um defeito na mitocôndria”, explica a cardiologista Carolina Casadei, coordenadora do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
“Eu não posso pegar isso e extrapolar para outra população que não foi estudada, como estão fazendo. Esse peptídeo não vai melhorar a mitocôndria das células ou a longevidade de pessoas saudáveis.”
Nesse contexto, é importante frisar que grande parte dos peptídeos vendidos como moduladores de imunidade, como o LL-37, também não tem comprovação para essa finalidade. “Não se pode vender um peptídeo que aumenta ou dá um boost na imunidade, porque isso pode acarretar doenças”, alega Sousa.
“Há gente se injetando citocinas artificiais, por exemplo, e isso é perigoso, pois elas participam de uma conversa muito bem orquestrada pelo organismo, e, se sair do controle, você pode morrer, como no caso da sepse, em que há uma tempestade de citocinas e o paciente falece pelo excesso delas.”
Os peptídeos mais populares do mercado

Apesar de comercializarem essas moléculas para diversas demandas, é um fato que a maioria atende a três áreas: metabolismo (vulgo emagrecimento), estética e performance. E aqui vale uma análise mais profunda dos peptídeos que ganharam popularidade justamente nesses campos.
Peptídeos para performance
Começando pelos ligados à performance física. Não é de hoje que marombeiros injetam substâncias proibidas. A novidade é que, agora, parte desse mercado se apresenta com um vocabulário mais sofisticado, falando em sinalização celular, recuperação muscular, estímulo hormonal e otimização do anabolismo.
Entre os alvos preferidos estão os relacionados ao hormônio do crescimento, o GH, que participa de processos relativos ao crescimento e à construção de tecidos e músculos. Peptídeos como CJC-1295, ipamorelina e GHRP-2 são chamados de secretagogos de GH, porque estimulam o organismo a liberar mais desse hormônio.
Já o IGF-1 LR3 atua mais para frente nessa mesma cadeia bioquímica: é uma versão modificada do IGF-1, um fator de crescimento produzido em grande parte pelo fígado como resposta à ação do GH.
“Essas moléculas são consideradas doping e estão na lista da WADA, documento oficial da Agência Mundial Antidoping que define quais substâncias e métodos são proibidos no esporte mundial”, ressalta Macedo.
A lógica por trás do uso para performance parece simples: mexer nessas vias favoreceria ganho de massa muscular, recuperação após o treino e até redução de gordura corporal. Mas interferir nas tramas do GH para fins estéticos traz riscos graves à saúde, incluindo diabetes e problemas no coração.
Além disso, injetar tais peptídeos não significa automaticamente obter todos os efeitos desejados, muito menos com segurança.
Um exemplo de como eles não só deixam a desejar como apresentam riscos foi o Enhanced Games, jogos em que os participantes se entopem de substâncias, incluindo peptídeos, para competir. “O resultado foi um tiro no pé: o único recorde batido foi por causa de tecnologia de vestuário, não de uma substância. Apesar da furada, eles usam esse tipo de evento para promover peptídeos”, analisa o diretor da Sbem.
A verdade sobre TB-500 e BPC-157
Nessa seara, outros peptídeos famosos são o TB-500 e o BPC-157. Os dois são vendidos como “regeneradores” de tecidos e músculos e capazes de acelerar a recuperação de lesões, mas não há evidências que sustentem essas promessas.
No caso do TB-500, os estudos clínicos citados para cicatrização foram feitos com a timosina beta-4, peptídeo maior da qual ele é derivado, e não com o TB-500 propriamente dito.
Uma varredura da literatura acadêmica que mapeou 80 estudos sobre essas duas moléculas mostrou que os dados são escassos — há um único trabalho com o composto!
Nos Estados Unidos, onde as promessas grassam com mais força, a FDA considera o TB-500 uma substância de risco significativo para manipulação, devido ao potencial de provocar uma resposta indesejada do sistema de defesa e ao risco da presença de impurezas na fórmula.
Já o BPC-157 é apoiado principalmente por experimentos em animais, sem ensaios clínicos robustos que comprovem eficácia e segurança para tratar lesões.
Em outras palavras: nenhum dos dois vingou para nada até agora. Mesmo assim, são injetados ao norte e ao sul da linha do Equador.
GHK-Cu: a ilusão da estética
Pensando em estética, o maior expoente desse mercado de peptídeos é o GHK-Cu, uma pequena molécula que tem alta afinidade pelo cobre. Naturalmente presente no organismo, ele participa de processos relacionados à formação de colágeno, cicatrização e remodelação da pele.
Há estudos com formulações cosméticas que sugerem melhora de aspectos como firmeza e aparência cutânea, o que ajudou a alimentar sua popularidade. Mas resultados na aplicação tópica, como creme ou pomada, não embasam automaticamente o uso com seringas.
“Não há nenhum estudo com essa molécula na forma injetável em humanos”, afirma a médica Lilia Guadanhim, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). “Há plausibilidade biológica, mas é tudo suportado por experimentos com células e animais. Injetar GHK-Cu em pessoas é querer brincar de laboratório na vida real”, alerta a especialista.
Guadanhim reflete que, dentro da dermatologia e em diversas outras áreas da saúde, cada vez mais se faz uma “medicina dirigida pela novidade”. Muitas substâncias e procedimentos são lançados antes de serem adequadamente testados, e os pacientes acabam funcionando como cobaias. Não à toa, segundo ela, boa parte do que surge nesse mercado desaparece pouco tempo depois.
“A medicina é uma carreira que não aceita o desaforo de o paciente não ser o centro do cuidado. Quando os procedimentos se baseiam em marketing, retorno financeiro ou status nas redes sociais, as coisas não dão certo.”
Riscos de usar peptídeos não aprovados
Para além de não funcionarem, é essencial destacar que peptídeos não são inócuos, muito menos quando injetados sem que se saiba exatamente o que há no frasco.
Em agosto, o sétimo caso de lesão hepática aguda foi registrado na Austrália entre pessoas que usaram um produto não aprovado vendido como retatrutida.
O alerta da agência reguladora australiana foi amplo: entre os eventos adversos associados a peptídeos não regulados estão reações alérgicas graves que exigiram hospitalização, inflamação sistêmica, coceira intensa, palpitações, dor, insônia e visão turva.
A velha lógica de que “se não faz bem, mal não faz” é furada.
Conforta saber que, pelo menos quando se trata de peptídeos voltados ao metabolismo, há avanços sérios e bem documentados vindo por aí. A tesamorelina é um bom exemplo de como esse caminho deveria funcionar.
Ao contrário de tantos peptídeos ligados ao GH que circulam com muita promessa e pouco estudo, ela passou por todo o desenvolvimento clínico, chegou à fase final de testes e demonstrou benefício na redução da gordura visceral, o que levou à sua aprovação nos Estados Unidos para uma indicação específica: adultos com lipodistrofia associada ao HIV.
Não é, portanto, uma substância para qualquer pessoa nem um tratamento genérico para emagrecimento.
Outra frente promissora envolve peptídeos que o próprio organismo usa para controlar fome e saciedade, como PYY e CCK, além de moléculas que atuam nas vias do já famoso GLP-1. A diferença é que, nesses casos, existe uma busca bem embasada para transformar mecanismos biológicos em medicamentos testados, e não em frascos de soluções milagrosas.
Como separar a verdade da extrapolação
Em meio a todo esse caos de desinformação, entre promessas robustas e propagandas enganosas, como saber no que confiar? Ou, vá lá, que peptídeo tomar?

Para Ana Bonassa, o que abre espaço ao charlatanismo atual é a falta de consequência pela divulgação de informações falsas.
“Eu tenho noção que entender a ciência não é uma prioridade na vida da grande maioria das pessoas. Por isso sou a favor de leis mais rígidas para evitar que aproveitadores abusem e lucrem com essa falta de conhecimento da população”, diz a cofundadora do perfil @nuncavi1cientista.
“Vender ou propagar produtos não aprovados e regulamentados que podem prejudicar a saúde da população deveria ser mais bem fiscalizado e punido”, defende.
Realmente, não é fácil separar o joio do trigo. Mas uma regra de ouro segue valendo: quanto maior a promessa, maior deve ser a exigência por evidências. Porque, quando o assunto é saúde, não existe atalho para a ciência de verdade.

