Há uma palavra que candidatos prudentes evitam e que Renan Santos (Missão) escolheu como slogan: “jamais”. Ao negar apoio tanto a Flávio Bolsonaro (PL) quanto a Lula (PT) em um eventual segundo turno, o presidenciável não fez apenas uma declaração de independência — fechou antecipadamente as duas avenidas por onde passa qualquer capacidade real de influência em um segundo turno.
“Jamais vou trabalhar com a hipótese de eu me juntar a algum desses grupos políticos, porque eles são corruptos.”
O problema não é a recusa em si: é o que ela revela sobre a compreensão de política do candidato. Negociar não é se corromper — é o que permite entregar algo a quem votou em você. Ao declarar que não trabalhará com nenhum dos dois blocos que hoje concentram a disputa, Renan renuncia de antemão ao único instrumento que um terceiro colocado tem: a capacidade de condicionar, influenciar e extrair compromissos em troca de apoio. Um candidato que diz “jamais” antes de ter qualquer poder de barganha não está sendo íntegro — está sendo previsível, e a previsibilidade é justamente o que torna um político inofensivo para quem manda.
A leitura estratégica que a frase esconde
Quando um candidato diz que não reconhece um ministro do STF como legítimo e, ao mesmo tempo, avalia que os fatos sobre o tribunal “vão alterar a dinâmica das eleições nas próximas duas semanas”, ele revela a verdadeira aposta da campanha: não é convencer eleitores com propostas — é surfar a crise institucional. Renan aponta o “cansaço do eleitor” como “a grande novidade política” que temos. É uma leitura de conjuntura honesta na descrição e cínica na conclusão: o cansaço do eleitor não é uma bandeira, é um sintoma — e quem se apresenta como solução para o cansaço sem apresentar programa acaba sendo apenas sua expressão mais barulhenta.
Por que isso importa para além da campanha dele
Um presidenciável que se define por negar os dois polos sem construir uma terceira via programática tende a desaparecer quando o segundo turno chega — ou, pior, a servir de instrumento: seu eleitorado vira massa de manobra para um dos lados que ele prometeu nunca apoiar. Guardadas as proporções, é o destino clássico dos candidatos que trocam projeto por adjetivo. E as cenas da quinta-feira ainda têm um detalhe revelador: perguntado sobre os adversários, Renan falou deles; perguntado sobre o país, falou do cansaço — nunca do que faria.
A conta final: o “jamais” de Renan Santos não blinda o candidato dos adversários — blinda os adversários dele do próprio Renan. Quem entra na disputa prometendo não se juntar a ninguém, sem apresentar o que faria no poder, entrega uma campanha que serve mais ao próprio palanque do que ao eleitor. E, num segundo turno, quem não tem a oferecer nada além de recusa costuma ser lembrado apenas pela recusa.
