
Ler Resumo
Diariamente recebo pacientes no meu consultório questionando o motivo pelo qual elas podem ter tido câncer de mama. A pergunta é sempre parecida:
— Doutora, mas porque estou com câncer? O que eu fiz de errado?
E vou dizer que acho muito cruel dizer que elas foram responsáveis pelo aparecimento de um câncer, porque afinal, nosso maior fator de risco para ter um câncer de mama é ser mulher e envelhecer diariamente.
Você pode achar isso estranho, mas a verdade é que mulheres têm 100 vezes mais risco de ter câncer de mama que homens, sendo assim, o primeiro fator é ser mulher. E o segundo, que é envelhecer, é explicado pelo simples motivo de reconhecermos que, quanto mais nossas células envelhecem, mais elas vão acumulando pequenos erros no DNA que o corpo não consegue consertar.
E, de repente, uma célula começa a se dividir mais que as outras e o câncer aparece. E onde entram os testes genéticos nisso?
Bem, sabemos que 85 a 90% dos cânceres são chamados esporádicos. São os tumores que aparecem porque estamos vivendo, porque estamos sendo expostos diariamente a uma série de efeitos da natureza, dos alimentos, das nossas escolhas e do ambiente que nos cerca.
Entretanto, 10 a 15% dos tumores podem sim ter aparecido porque nascemos com uma “pré-disposição”. Explicando melhor, é como se todo câncer precisasse de duas etapas para acontecer, e algumas pessoas nascessem com a primeira etapa já codificada em todas as células do seu corpo.
Com uma avaliação da saliva ou do sangue, conseguimos realizar o teste genético e identificar quais são as pessoas que já nasceram com esses genes modificados, ou, como chamamos, mutados.
Costumo explicar que o teste genético é uma abertura, um furinho na porta, para que, sem abrir esta porta, você possa olhar através dela e se preparar para o que existe do outro lado.
Se o teste não identifica nenhum risco, você abre a porta e segue a vida, mas, se encontra uma mutação perigosa, você se prepara melhor para abrir a porta e também seguir sua vida, mas com um preparo diferente.
Infelizmente ainda ouço médicos dizendo que não indicam o teste genético às suas pacientes porque acham que este teste somente gera ansiedade. Discordo fortemente e até por isso trouxe este tema para cá.
É claro que pessoas que fazem exame sentem ansiedade, medo do resultado, incertezas, mas também se munem de informação, de poder de escolha, de conhecimento que gera poder.
Os estudos mostram que conhecer antes gera melhor cuidado, antecipa escolhas e reduz o risco de tumores avançados, com mais possibilidade de tratar o câncer precocemente, pois o cuidado é personalizado e feito mais de pertinho.
Quem não se lembra do caso da Angelina Jolie? Que fez a retirada das mamas antes que pudesse ter câncer? Esse tipo de cirurgia não é indicada para todas as mulheres que têm um gene identificado no teste, mas, e se você soubesse que sua vizinha, sua amiga, ou suas conhecidas têm um risco de ter câncer de mama em torno de 10 a 12% e você tem um risco que pode chegar a 60, 80%?
Você não acha que buscaria viver melhor que elas ou até consideraria uma cirurgia para reduzir seu risco? Alguns genes podem aumentar o risco de câncer de ovário em 40 vezes! E aí? Toparia viver sem nenhum cuidado especial com todo este risco?
Pois bem, o teste genético fala a estas pessoas. Não precisa ser feito por todos, mas algumas pessoas são fortemente beneficiadas da informação para melhorar seu cuidado.
E aí? Já tinha ouvido falar nesse teste? Quer saber mais sobre ele ou sobre qualquer outro tema? Escreva para a VEJA SAÚDE e conte o que gostaria de ler por aqui.
Fiquem bem.
