RED-S: a síndrome silenciosa que enfraquece os ossos até dos atletas mais saudáveis

Início Saúde RED-S: a síndrome silenciosa que enfraquece os ossos até dos atletas mais saudáveis
RED-S: a síndrome silenciosa que enfraquece os ossos até dos atletas mais saudáveis

Ler Resumo

Imagine um atleta que treina diariamente, tem baixo percentual de gordura, músculos bem definidos e excelentes resultados nas competições. À primeira vista, ele representa a imagem perfeita da saúde. Mas nem sempre é assim.

Por trás dessa aparência de força pode existir uma condição silenciosa que enfraquece o organismo de dentro para fora: o RED-S, sigla em inglês para deficiência energética relativa no esporte.

O problema surge quando o corpo passa a gastar mais energia do que recebe pela alimentação. É como uma conta bancária que permanece no vermelho por tempo demais. Para continuar funcionando, o organismo começa a economizar onde consegue — e essa economia tem um preço.

Isso pode acontecer quando o atleta restringe a alimentação para perder peso, busca um físico mais magro ou simplesmente aumenta muito o volume de treinos sem ajustar a ingestão de calorias. O resultado vai muito além da fome: todo o equilíbrio do organismo é afetado.

+Leia também: Overtraining: o que acontece quando você se exercita demais?

Quando falta energia, o corpo faz escolhas

Nosso organismo é programado para sobreviver. Quando percebe que a energia disponível é insuficiente, ele prioriza funções essenciais, como manter o coração e o cérebro funcionando, e reduz o investimento em outras áreas. Entre as primeiras “vítimas” desse processo estão os hormônios e a saúde dos ossos.

Continua após a publicidade

A produção de hormônios sexuais diminui, o metabolismo ósseo se altera e a capacidade de formar e reparar o tecido ósseo fica comprometida. Aos poucos, os ossos se tornam mais frágeis, mesmo que o atleta continue treinando normalmente.

É justamente aí que mora o perigo: muitas vezes o desempenho parece preservado, o físico continua impressionante e ninguém percebe que o organismo já está em desequilíbrio.

O primeiro alerta costuma aparecer nos ossos

Na prática clínica, uma das consequências mais frequentes do RED-S são as fraturas por estresse — pequenas fissuras causadas pela repetição dos impactos do treinamento, sem que tenha ocorrido uma queda ou outro trauma importante.

Dores persistentes nas pernas, nos pés, na pelve ou na região lombar, recuperação lenta entre os treinos e queda inesperada de desempenho são sinais que merecem atenção.

Continua após a publicidade

Nas mulheres, alterações menstruais ou a interrupção da menstruação costumam ser pistas importantes. Nos homens, o diagnóstico pode demorar mais, já que as alterações hormonais costumam ser menos evidentes.

Além dos ossos, o RED-S também pode afetar a imunidade, aumentar o risco de lesões musculares, prejudicar a concentração, alterar o humor e comprometer a performance esportiva.

Um problema que pode acompanhar o atleta por toda a vida

Existe outro aspecto pouco conhecido e ainda mais preocupante.

A adolescência e o início da vida adulta são períodos em que o organismo constrói a maior parte da massa óssea que servirá de proteção durante o envelhecimento. É como formar uma “poupança” para os ossos.

Continua após a publicidade

Se o RED-S acontece justamente nessa fase, essa reserva pode nunca atingir seu potencial máximo. O resultado é um risco maior de osteoporose, fraturas e outros problemas musculoesqueléticos décadas depois.

A boa notícia: há tratamento

Quanto mais cedo a condição é reconhecida, maiores são as chances de recuperação completa.

O tratamento envolve corrigir a disponibilidade de energia por meio da alimentação, ajustar a carga de treinos quando necessário e acompanhar o atleta de forma multidisciplinar, com médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e preparadores físicos.

Também é importante abandonar uma ideia bastante difundida no esporte: quanto mais magro, melhor. Em muitos casos, um corpo extremamente definido pode estar enviando justamente o sinal contrário — o de que está faltando energia para manter o organismo saudável.

Continua após a publicidade

A prática esportiva deve fortalecer o corpo, não o enfraquecer.

Por isso, dores recorrentes, fraturas por estresse ou queda inexplicada de rendimento nunca devem ser encaradas como “parte do treinamento”. Muitas vezes, são o pedido de ajuda de um organismo que já está trabalhando no limite.

No esporte de alto rendimento, saúde e desempenho precisam caminhar juntos. Afinal, quando o corpo entra em dívida energética, os ossos costumam ser os primeiros a pagar essa conta.

*Camila Cohen Kaleka é ortopedista, mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, doutora pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e membro da Brazil Health

Continua após a publicidade

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

brazil-health