Existem detalhes de uma investigação que valem mais do que qualquer acusação: são os que não deveriam existir em uma operação comercial normal. Um fundo de investimento criado em 2020 e que fica inativo por quatro anos, sem movimentar recursos, até receber a primeira remessa de US$ 2 milhões em fevereiro de 2025 é um desses detalhes. Fundos não nascem para dormir; nascem para captar. Um veículo que passa quatro anos parado e desperta exatamente no início do fluxo de pagamentos do filme tem, aos olhos da PF, menos cara de gestora e mais cara de conta de passagem.
O fundo é o Havengate, sediado nos Estados Unidos, administrado pelo advogado Paulo Calixto, próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. É ele que administra os valores e os repassa à produtora Go Up Entertainment.
As sete transferências e o valor em malas
O operador Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro“, confirmou à PGR ter feito sete transferências ao fundo Havengate — repasses que somam US$ 12,3 milhões e que ele diz ter realizado a pedido de Vorcaro. Em seu acordo de colaboração, relatou também entregas de dinheiro em espécie, inclusive em malas, a pessoas indicadas pelo banqueiro, alegando desconhecer a finalidade dos valores.
Há uma linha de investigação específica sobre se os repasses também serviram para custear o período de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O dado temporal é o que a torna relevante: Eduardo mudou-se para o Texas em fevereiro de 2025, alegando perseguição política — e as parcelas ao Havengate foram pagas entre fevereiro e setembro daquele ano. O mesmo mês do início das remessas é o mês da mudança. Coincidência de calendário não é prova, mas é, em investigação financeira, o ponto exato onde se pede explicação.
Por que o relatório foi liberado agora
O material foi liberado por André Mendonça às vésperas de uma sessão do STF que decide sobre a validade de um relatório policial a respeito de mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes — sessão que pode resultar na abertura de investigação contra o próprio ministro. Ou seja: os documentos vêm à luz em um momento processual em que o caso Master deixa de ser apenas sobre o filme e passa a testar o próprio tribunal.
A conta final: um fundo inerte por quatro anos, sete transferências, um delator que diz desconhecer o destino, uma mudança para o Texas no mesmo mês em que as remessas começam e um empréstimo de “patrocínio” de US$ 24 milhões para um filme cujo orçamento a PF considera fora de qualquer parâmetro. Se a explicação é simples, ela é boa notícia — mas terá que vir em extratos, não em entrevista.
