“ARMADILHA DA ESQUERDA”? O governador que transformou uma agressão filmada em tese de conspiração — antes de qualquer perícia

“ARMADILHA DA ESQUERDA”? O governador que transformou uma agressão filmada em tese de conspiração — antes de qualquer perícia

Há dois fatos e uma reação. O fato 1: uma candidata a suplente ao Senado foi derrubada, chutada e atingida por balas de borracha durante uma abordagem da PM, em Jaraguá do Sul, na noite de sábado (12). O fato 2: a corporação instaurou apuração pela Corregedoria e o TRE-SC declarou acompanhar o caso. A reação: em vídeo, o governador Jorginho Mello, candidato à reeleição pelo PL, classificou o episódio como uma armadilha da esquerda contra a Polícia Militar de Santa Catarina.

A ordem das coisas é o que incomoda. Quando um governador enquadra uma agressão filmada como “armadilha” antes do resultado da Corregedoria, ele não está defendendo a corporação — está apostando contra a apuração. Defesa institucional legítima se faz esperando o laudo; a leitura antecipada tem outro efeito: transforma o vídeo em peça de campanha e coloca a corporação no meio do palanque, exatamente o que uma autoridade deveria evitar em ano eleitoral.

O que a tese da armadilha pede — e o que ela ignora

Para que a versão da “armadilha” se sustente, seria necessário admitir uma montagem com requisitos improváveis: uma advogada se dispor a levar mata-leão, chutes e tiros de bala de borracha; uma criança autista figurar como pano de fundo da denúncia de som alto; e uma corporação inteira agir sem perceber que estava sendo filmada — por vizinhos, em plena rua residencial, à noite. Nada disso é impossível, mas cada uma dessas condições é verificável — e é esse o ponto: quando a tese é verificável, não se anuncia a conclusão; produz-se a prova.

O caso tem, ainda, um elemento que desmonta a moldura “nós contra eles”: Fernanda Klitzke tem histórico de proximidade com a corporação — Décio Lima lembrou que ela já recebeu o título de Amiga da Polícia Militar. Uma advogada com esse título não é, por definição, o perfil que a narrativa da “armadilha da esquerda” precisa. E é justamente aí que a classificação do governador cobra seu preço: ao tratar o episódio como encenação, ele desrespeita a corporação que ele diz defender — porque presume que ela faria parte do roteiro ou que foi ingênua o suficiente para cair nele.

Os pedidos que estão na mesa

Enquanto a tese é disputada, os procedimentos caminham: o PT catarinense pediu apuração urgente ao TRE-SC, e o candidato ao governo pela mesma coligação, Gelson Merisio (PSB), contatou o presidente do TRE-SC, desembargador Carlos Roberto da Silva, solicitando providências diante da suspeita de que a abordagem tenha ocorrido em contexto de natureza política. A PM encaminhou os fatos à Corregedoria-Geral, e a policial que teria se lesionado recebeu atendimento. Décio Lima classificou a violência como “brutal e inaceitável” e lembrou que as prerrogativas da advocacia — o direito de acompanhar e orientar quem está sendo abordado — não são privilégios, são garantias legais.