DE R$ 250 MIL PARA R$ 1 MILHÃO: o projeto de Filipe Barros que quadruplicaria a garantia — e por que isso valia dinheiro para o Master

DE R$ 250 MIL PARA R$ 1 MILHÃO: o projeto de Filipe Barros que quadruplicaria a garantia — e por que isso valia dinheiro para o Master

Existe um número nesta história que explica tudo o que veio depois: R$ 250 mil. Era o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — a proteção que o investidor tem quando um banco quebra. O projeto de lei apresentado por Filipe Barros, semelhante à emenda do senador Ciro Nogueira (PP-PI), propunha elevar esse teto para R$ 1 milhão. E aqui não se trata de preferência regulatória: trata-se de entender de que lado estava o dinheiro.

Bancos que oferecem rendimento acima do mercado têm um problema estrutural: são justamente os que parecem menos seguros, porque pagar mais caro pelo dinheiro do cliente é o que instituições com menor captação fazem. É aí que o FGC entra — e é por isso que a apuração trata esse detalhe como a base do modelo de negócios do Master, cujo sócio-fundador é Daniel Vorcaro. Elevar a garantia de R$ 250 mil para R$ 1 milhão é, para esse modelo, multiplicar por quatro o argumento de venda: atrai o investidor que aceita taxa alta porque confia na proteção estatal — até o teto, que passaria a ser bem mais alto.

O caminho que o projeto trilhou — e o que ele revela

Vale acompanhar o rastro institucional do texto, porque ele mostra consciência do custo político envolvido. A emenda de Ciro Nogueira foi rejeitada na CCJ do Senado pelo relator Plínio Valério (PSDB-AM) da PEC 65 de 2025 — com um argumento processual explícito: seria mais adequado fazer a mudança por projeto de lei, “como foi feito depois por Barros”. Ou seja: um senador bloqueou a via da PEC e indicou a via do PL; o PL apareceu na Câmara, por Filipe Barros. É coordenação legislativa legítima e comum — e, ao mesmo tempo, é exatamente o desenho que a investigação vai querer ler em conjunto com os outros atos do mesmo mandato. O texto, porém, não chegou a ser votado.

Os atos que vieram na sequência

Não foi só o projeto. Ainda conforme o levantamento, Barros pautou na Comissão de Relações Exteriores requerimentos — um convite ao presidente da CVM, João Pedro Nascimento, sobre “o impacto da atual estrutura regulatória do mercado de capitais sobre a soberania econômica nacional” (audiência em 8 de julho de 2025), e um convite ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre ataques hackers ao Pix — à época em que o BC já havia constatado fraudes nas carteiras de crédito vendidas pelo Master ao BRB. Em 3 de setembro de 2025, no mesmo dia em que o BC rejeitou a compra do Master pelo BRB, apresentou requerimento ao Banco Central sobre a liquidação de Banco Econômico e Banco Nacional, endereçado à Diorf — diretoria comandada por Renato Gomes, o diretor contrário à venda do Master ao BRB e favorável à liquidação do banco de Vorcaro.

A versão do deputado

Barros negou qualquer irregularidade. Disse ter interesse na regulação do mercado financeiro e de capitais e que passou a estudar o assunto por ser contra o modelo atual de autonomia do BC. Sobre os requerimentos, afirmou que “não é possível dissociar hoje a soberania nacional da econômica”, citando sanções econômicas dos EUA como exemplo. A justificativa tem lógica interna — soberania econômica é tema real e autonomia do BC é debate legítimo. O que ela não entrega é a amarração com o calendário: o projeto do FGC, as audiências e o requerimento à Diorf ocorreram entre novembro de 2024 e setembro de 2025 — o intervalo exato em que o BRB tentava comprar o Master, e o Master precisava de garantia maior e de um regulador menos hostil.

A conta final: o eleitor paranaense não precisa decidir se FGC de R$ 1 milhão é boa ou má política pública — há argumentos dos dois lados, e o próprio Senado preferiu a via legislativa. Precisa decidir outra coisa, mais direta: o dinheiro que o Master captava com a promessa de garantia estatal era o dinheiro de quem? Previdências, poupanças, aposentadorias — de gente que confiou no teto. Quadruplicar o teto não cria risco novo; cria mais espaço para ele. E quem apresentou o projeto é pré-candidato ao Senado — ou seja, quer exatamente o cargo de quem legisla sobre esse teto.