O cientista político Luiz Antônio não falou sobre maconha: falou sobre método. Na avaliação dele, a associação pública de um investigado por tráfico de drogas com uma candidatura deve ser considerada no debate eleitoral — e o episódio serve para abrir uma discussão mais ampla sobre os riscos da aproximação entre política e organizações criminosas.
Para sustentar o argumento, ele buscou paralelos fora do Brasil e dentro dele:
“Olha o Rio de Janeiro. Olha as condições, olha os governadores que foram presos, os deputados foram presos, presidente de Assembleia preso, presidente do Tribunal de Contas, todo mundo preso porque fizeram concessões pro crime organizado.”
A tese é antiga e conhecida de quem estuda segurança pública: o crime organizado não precisa de governo; precisa de tolerância. Uma vez instalado, captura estruturas — e depois não devolve. Daí a comparação:
“A Colômbia abriu as portas, fez acordo com o crime. Ela passou mais de 20 anos refém do crime organizado até que conseguisse se libertar do crime.”
O que isso tem a ver com uma campanha específica
Aqui é onde a análise deixa de ser geopolítica e vira pergunta eleitoral concreta. No Amazonas, o caso é o seguinte: Rodrigo Soares, mais conhecido como “RC Soares” — preso em operação da Polícia Civil do Amazonas na quinta-feira (3), com cerca de 2,5 toneladas de skunk apreendidas em dois caminhões em imóvel no Aleixo — se apresentava, nas redes sociais, como “coordenador da campanha” de Maria do Carmo Seffair (PL), candidata ao governo. A polícia também divulgou imagens de uma casa com materiais de campanha com a imagem da candidata.
E o que a análise cobra não é a responsabilidade penal — que não existe imputada e que não é o objeto do debate. É a responsabilidade política de uma escolha:
“Candidato nenhum deixaria alguém se apresentar como coordenador de campanha sem que legitimasse essa decisão. Tendo presença deles junto com a Maria do Carmo em vários momentos diferentes.”
A frase resume um problema de controle de dano: ou a campanha sabia — e legitimou alguém que hoje está preso preventivamente por investigação de tráfico —, ou não sabia — e então não tinha controle nenhum sobre quem falava em seu nome. Nos dois cenários, o eleitor fica com a mesma desconfortável conclusão: é um risco de gestão de pessoas que se apresentam como porta-vozes da candidatura.
O fecho do analista
“A sociedade amazonense não merece isso e a gente precisa ter responsabilidade na escolha eleitoral sob pena de a gente abrir as portas e depois não saber fechar.”
A conta final: o caso de 2,5 toneladas de skunk virou, no debate, um problema de julgamento político — não de culpa criminal de Maria do Carmo, que negou vínculo, diz não saber como o material chegou ao local e pediu investigação independente, e cuja defesa (Sérgio Bringel Júnior) contesta vínculo oficial. Mas o alerta do analista não depende disso: nenhuma candidatura ao governo do Amazonas deveria descobrir, pela polícia, quem circulava dizendo ser seu coordenador. Se a campanha não sabia, o que mais ela não sabe? — e é essa pergunta, e não a droga, que o eleitor amazonense deveria levar para a urna.
