Antes do adesivo, houve uma frase. Na convenção do PL que oficializou Luciano Zucco como candidato ao governo do Rio Grande do Sul, na quarta-feira (22), o presidente estadual da legenda, Giovani Cherini, declarou que, daquele momento em diante, “do pescoço pra baixo é tudo canela”. A reação veio do presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan Júnior, que acusou o grupo de se preparar para uma guerra, e não para um debate político. Cinco dias depois, a denúncia de Manuela D’Ávila (PSOL) sobre o adesivo com seu rosto riscado de vermelho exibido por Zucco fechou o círculo: a campanha gaúcha abriu com vocabulário de combate físico, e chegou à primeira semana de disputa com o rosto de uma adversária transformado em alvo.
Isso não é coincidência de estilo — é um sistema de comunicação. Quando uma campanha escolhe o corpo como metáfora central, o que ela está dizendo é que o adversário não é um debatedor: é um obstáculo. “Pescoço” e “alvo” são termos do mesmo universo: um pressupõe o outro. E é justamente aí que a análise política séria precisa parar de tratar o caso como “excesso de retórica” — porque retórica, em campanha, produz efeito real: ela define o que a militância entende como permitido.
O que a convenção oficializou, em concreto
Para além do episódio, as convenções de julho desenharam os dois campos da disputa gaúcha.
No campo da direita, Zucco (PL) foi oficializado candidato ao governo na convenção de quarta (22) na Assembleia Legislativa, com a deputada estadual Silvana Covatti (PP) como vice e o deputado federal Ubiratan Sanderson (PL) como um dos postulantes ao Senado. O bloco formado por PL, PP, Novo, Republicanos, Podemos e Democracia Cristã também apoia Marcel van Hattem (Novo) para a segunda vaga ao Senado — apoio formalizado pelo Republicanos em convenção no domingo (26).
No campo progressista, a convenção de sábado oficializou Juliana Brizola (PDT) como candidata ao governo e Edegar Pretto (PT) como vice, reunindo PDT, PT, PSOL, PSB, PCdoB, PV, Rede e Avante. As duas vagas ao Senado ficaram com Manuela D’Ávila (PSOL) e o deputado federal Paulo Pimenta (PT). No lançamento da chapa, Manuela declarou que aquela seria a eleição mais importante de sua vida e ligou sua candidatura diretamente ao enfrentamento da violência contra as mulheres: “Neste Estado, sairá a voz das nossas mulheres vivas enfrentando a violência”.
O quadro se completa com Gabriel Souza (MDB), apoiado pelo grupo do atual governo estadual; Marcelo Maranata (PSDB); Rejane de Oliveira (PSTU); Priscila Voigt (UP); e César Pontes (PCO) — lembrando que as convenções tinham até 5 de agosto para homologar candidaturas e coligações.
Por que a linguagem da campanha importa mais do que o normal neste estado
Existe um motivo específico para o caso gaúcho merecer atenção redobrada — e a própria Manuela o enunciou na publicação: “Vivo em um estado que é campeão de feminicídios de mulheres que haviam buscado proteção”. Em uma unidade da federação com esse perfil, símbolos não são etéreos: eles compõem o repertório de quem assedia, ameaça e mata. É essa a razão pela qual “é só um adesivo” não funciona como defesa — porque o adesivo não existe no vácuo: ele existe em um estado, em um ano específico, contra uma mulher que passou seis anos fora das urnas por causa de ameaças e cuja filha já foi ameaçada com seis anos de idade.
O que falta, e quem deve
Duas coisas faltam neste episódio, e ambas são simples. A primeira é a manifestação de Zucco: até o fechamento da reportagem, a Fórum não localizou posicionamento público do candidato sobre a denúncia — e a ele cabe explicar, com suas palavras, o que pretendia comunicar ao usar aquele adesivo. A segunda é um limite declarado: uma nota do PL gaúcho dizendo se “do pescoço pra baixo é tudo canela” é posição oficial da legenda e se peças com o rosto de adversárias riscadas serão admitidas na campanha. Sem essas duas respostas, o que fica registrado é que a campanha da direita gaúcha escolheu como tema não os problemas do estado — mas a destruição simbólica de uma candidata, e que ninguém, no comando da legenda, considerou necessário dizer que esse caminho tem limite.
A conta final: o Rio Grande do Sul tem, em outubro, uma disputa com duas vagas ao Senado, três candidatos tecnicamente empatados na liderança (Manuela 30,7%, van Hattem 28,6%, Rigotto 26,3%) e uma corrida ao governo em empate técnico (Zucco 34,2% x Juliana Brizola 30,1%). Ou seja: a eleição se decidirá em detalhes — e é justamente por isso que a linguagem da campanha passa a ser decisiva. Em um estado dividido dessa forma, quem transforma o adversário em alvo não conquista o indeciso: assusta-o. E em uma eleição apertada, o voto que foge do medo vale tanto quanto o voto que vem da convicção.
